terça-feira, 3 de novembro de 2009

Festa da colheita em Konkuykoro

Depois da época das chuvas começam as colheitas e as festas para agradecer o alimento desse ano. Todos os vilarejos fazem essa festa, pensávamos que era um acontecimeto social, mas finalmente essas festas são feitas nas igrejas, cada uma na sua maneira, mas o ritual deve ser bem parecido (acho). No outro domingo perdemos a de Toma, nosso amigo Fidèle tinha nos convidado mas nas vésperas da viagem uma pessoa da família dele faleceu em Bobo-Dioulasso e então ele teve que ir para cumprir o papel dele (lembram que na etnia dele ele prepara o corpo para o funeral?).

Desde que voltamos Eric tem saído bastante para trabalhar com os agricultores da região (aliás, assim que der ele vai contar aqui as últimas novidades) e um deles, Charles, nos convidou para voltar no vilarejo nesse domingo para participarmos da festa da colheita (foi na casa dele que o Eric dormiu no final de setembro, quando a chuva veio e ele não pôde voltar para a casa). Não foi normal, mas sábado choveu bastante e parou às 8h da manhã de domingo. Nessa altura já tínhamos desistido de ir, mas o Charles ligou e insistiu para pegarmos estrada. Ele disse que mesmo que a gente chegasse lá mais tarde era para ir! Saímos então de Dédougou quase às 9h, de moto. Konkuykoro fica a 90 km, não tem asfalto, não tem luz, não tem água corrente... é um vilarejo cheio de baobás, limpo, com quase 2 mil habitantes. A viagem foi longa pois em quase todo o trajeto a estrada estava mais ou menos assim:

Chegamos meio-dia em ponto na casa do Charles, que nos recebeu muito contente, de toalha enrolada na cintura! Foram tantas informações num único dia! Primeiro ele nos convida para entrar e descansar nessas cadeiras deliciosas que eles têm por aqui, ao lado de um monte de feijão que ele tinha colhido:

e abre uma melancia suculenta! Entramos no período das melancias e essa foi a primeira do dia! O papo começa enquanto o amigo dele nos prepara um chá! Charles já um senhor, um agricultor de “médio porte” bastante experiente, já foi para o Canadá, etc. Um homem simples, tranquilo e adorável!!! Andamos pelo vilarejo com o Charles e ele foi nos apresentando quem parava para nos cumprimentar. Quando chegamos a igreja já estava lotada, mas o Charles levou a gente para o primeiro banco. A missa foi muito animada e longa, toda em língua local (o Charles traduziu alguns trechos) e mais uma vez só tinha a gente de tubabu! E as crianças!? teve uma hora que tinham umas 30 na nossa frente, admiradas, rindo e se encondendo (de costas para o altar) até que alguém veio chamar a atenção delas e levá-las de “volta para o lugar”! A dança que eles fazem é diferente das que tínhamos visto até agora, mas os instrumentos são os mesmos. Mais para o final da missa, entram homens e mulheres com as oferendas a serem agradecidas, cada um com alguma coisa na mão: abóbora, melancia, tomate, cebola, arroz, milho, pequeno-milho (tradução literal), sorgo, gergelim, frango, cabrito, um bebê... eles fazem uma roda, cantando e dançando, e vão levantando e agradecendo tudo. Sim, jogam a criança e o cabrito pra cima!

Quando a missa acabou um senhor veio dizer ao Charles que eles nos ofereciam comida; mas ficamos sem saber os detalhes. Voltamos para a casa do Charles, ele abriu mais uma melancia (2ª do dia) e a esposa dele trouxe o almoço: arroz com molho de amendoim e carne de cabra e o deguê – hum, como explicar? Uma espécie de cereal que eles fazem uma “papa”, é gostosinho - mais a panela oferecida pela igreja. A ideia então era participarmos da festa e depois voltarmos para casa, mas a missa não acabou a tempo da gente chegar em Dédougou ainda de dia e então resolvemos passar a noite lá, o que deixou o Charles contente!

Eu tinha perguntado ao Charles se em Konkuykoro tinha escola e a resposta dele foi “você quer ir lá ver?” ... saímos então da casa dele e fomos passear, agora sem pressa. Em todas as cours um grupinho de pessoas sentadas conversando, todas nos saludando. Paramos para falar com um grupo de homens que estava ao lado de uma montanha de melancias, no pé de um enorme baobá... e o sol se pondo deixou essa cena especialmente bonita. Fomos até a escola e até a casa do diretor, que muito gentilmente abriu uma melancia pra gente (3ª do dia); ele me disse que lá eles têm uns 300 alunos e 6 professores! Voltando da casa do diretor, passamos em mais 3 amigos. Um deles, Gabriel, nos deu um saco de ovos de galinha d'angola e fez um monte de perguntas sobre o Brasil! Na casa dele jantamos (arroz com molho de amendoim e carne) e numa outra comemos o degê de novo. Notei que o Charles também não recusa nada do que nos oferecem, “é um dia de festa e nos dias de festas, comemos juntos, como os que são amigos fazem”, disse ele. Aqui é assim, aqueles que dividem um prato, são amigos; se te dão o que comer, é porque te consideram como um amigo. E, voltamos para a casa do Charles para descansar e jantar (mesmo prato e a 4ª melancia do dia). O filho dele mais velho nos trouxe um frango de presente e preparou o chá da tarde.

Quando era noite já, saímos para a dança. Charles emprestou uma roupa típica para o Eric! Antes de ir para a festa o Charles também veio com um super blusão para mim, ele disse que com o meu casaco eu ia sentir frio! Foi a primeira vez que sentimos um pouco de frio, estava mesmo fresquinho. Observação: desde o início ele estava preocupado com a calça jeans do Eric! Essa calça tem um rasgo no joelho esquerdo (e eu brigo com ele para não usar mais), mas como ficamos imundos depois de pegar a estrada... ele foi com ela. Quando chegamos o Charles notou e perguntou o que tinha acontecido, se tinha sido na viagem e perguntou se o Eric queria se trocar. Eu quase me enfiei dentro do monte de feijão! Eric respondeu que tudo bem e perguntou se havia problema ele ir na missa assim. Charles, logicamente, disse que não havia problema nenhum, mas estranhou! Acontece isso, nós evitamos de usar roupas “boas” aqui, mas eles são vaidosos com as “roupas sociais”, principalmente em dia de festa. Né, seu Eric!? A noite foi linda! Pegamos uma lua cheia linda que iluminava todo o caminho! Tudo! Nem era preciso lanterna onde não tem eletricidade! Ficamos maravilhados!! Fomos para a roda de dança, conversamos mais um pouco com o Timothée (amigo do Charles, também muito gente boa), dançamos um pouquinho e voltamos para a casa quase 1h da manhã! A lua ainda estava lá, iluminando tudo...

A esposa do Charles já tinha arrumado a nossa cama... dormimos super bem na roça! Pena que durou somente 4 horinhas porque levantamos cedo para pegar estrada novamente! Quando acordamos, ainda estavam dançando. No café da manhã a nossa 5ª melancia (e não pode pegar só um pedaço), o deguê e o chá. Nós ficamos contentes com esse dia, com a forma com que fomos acolhidos e mais uma vez mexidos com o que não sabemos bem explicar. Eu, particularmente, fiquei emocionada de ter estado ali, num vilarejo no interior do interior da África, onde a vida é dura, simples e ninguém reclama dela. Onde TODOS se cumprimentam e perguntam “como vai a família no Brasil?”. Onde falta tudo, mas todo mundo tem telefone celular.

O Charles, sentado à direita com a sua esposa, tem 7 filhos. Esses na foto são os mais novos, que ainda moram com ele. Uma filha e um filho já são casados e moram no mesmo vilarejo. O rapaz que não conhecemos mora no Mali e a outra filha mora em Nouna, uma cidade perto. A esposa dele não fala francês, mas nos despedindo Charles traduziu o que ela queria dizer: que ficou muito contente em nos receber na casa dela e que somos amigos. Ele levou a moto do Eric até a entrada da cour e disse “Que Deus projeta vocês na estrada e a família de vocês sempre!”

Deixamos Konkuykoro - com um casal de frangos (um em cada guidão da moto), um saco de ovos, uma garrafa de deguê e uma melancia (grande) - dando tchau para todos os que apareciam no caminho sorrindo ou desejando boa viagem e... com lágrimas rolando!

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Palu

Palu é como todos chamam por aqui o paludismo, mais conhecido no Brasil como malária! Segundo a Wikipédia: a malária mata 3 milhões de pessoas por ano, uma taxa só comparável à da SIDA/AIDS, e afeta mais de 500 milhões de pessoas todos os anos. É a principal parasitose tropical e uma das mais frequentes causas de morte em crianças nesses países: (mata um milhão de crianças com menos de 5 anos a cada ano). Segundo a OMS, a malária mata uma criança africana a cada 30 segundos, e muitas crianças que sobrevivem a casos severos sofrem danos cerebrais graves e têm dificuldades de aprendizagem. Há, todos os anos, 300 a 500 milhões de casos da malária, dos quais mais de 90% na África.

Sabíamos que o índice de casos aqui em Burkina é um dos mais altos e por isso é altamente recomendável tomar medicamentos que diminuam os sintomas. Não existem medicamentos que evitam o palu, somente alguns que minimizam os sintomas que podem variar muito de pessoa para pessoa. No geral, esses sintomas são febre alta, cansaço intenso, vômitos e em alguns casos convulsões. No caso das crianças, a maioria delas precisam fazer transfusão de sangue.

Pelo que nos informamos, os medicamentos que são específicos para o palu têm efeitos colaterais muito fortes, que além dos mais comuns também dão manchas na pele (por causa do sol), levam à depressão e conhecemos casos de pessoas que tiveram alucinações. O remédio que tomamos é o malarone, menos forte mas ele é um pouco mais caro que os outros. Em todas essas alternativas, o tratamento é de 3 meses, mais tempo corre-se o risco de não resolver mais. Então, quem mora aqui mais tempo ou toma por 3 meses ou não toma.

A época do ano em que os casos aumentam muito é a época das chuvas (que terminou no início de outubro) e é principalmente nesse período que precisamos nos cuidar, tanto com os medicamentos quanto com os mosquiteiros para dormir (o mosquito ataca mais durante a noite), incensos, repelentes, sabonete anti-mosquito, citronela, gerânio e tudo o que ouvimos dizer que é bom!

Bem, tudo isso para comentar que uma das coisas que nos chamaram muita atenção foi que os casos de palu são mesmo muito frequentes, mais do que pensávamos. TODOS com quem temos contato tiveram crises, algumas pessoas mais de uma, duas vezes. Sem contar os que comentam dos vizinhos e familiares. Quando voltamos da França o Pierre teve uma crise, pela primeira vez, e a Anne estava saindo de uma. Parece que enquanto tomamos os remédios, os sintomas ficam "escondidos" e dependendo da pessoa não se sente nada. Mas como o Pierre, por exemplo, parou de tomar o remédio nesse período, os sintomas vieram à tona. Mas ele está bem agora, curado. Por outro lado, nós dois também paramos nessas duas semanas e nada veio à tona, pelo contrário, ficamos aliviados de não ter os "pequenos" efeitos colaterais que tivemos desde o início!

Aqui o povo não toma esses medicamentos, é caro pra gente, mais ainda pra eles. Costuma-se tomar quinina (também temos no Brasil) mas o problema é que eles falam que essa planta também tem seus efeitos colaterais, parece que ficam meio surdos durante o tratamento. Enfim, é uma praga esse palu!

Vemos por aí que tem campanhas e cartazes incentivando o povo a dormir dentro dos mosquiteiros... mas o que falta mesmo é uma "vontade macro" para erradicar o mosquito do palu (Anopheles)! A malária é uma das *doenças negligenciadas* - seja por insuficiências das políticas públicas de saúde, seja por desinteresse da indústria farmacêutica em pesquisar novos medicamentos para doenças que atingem as populações mais pobres, em áreas igualmente pobres - portanto, fora do mercado. Acrescentamos que o que vimos ambém tmuito por aqui é que as pessoas têm preguiça de usar o mosquiteiro, elas têm mas não usam na hora de dormir :/

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Estamos de volta!

Já fomos e já voltamos! As duas semanas na França correram bem, fizemos quase tudo, quase tudo mesmo, que precisávamos! Só não deu para descansar, mas o friozinho nos fez muito bem! Fomos muito bem acolhidos pela Nicole que nos recebeu em sua casa (onde está a nossa "mudança") e pelos amigos que conseguimos visitar, além do papo gostoso, comidinha gostosa e deliciosos queijos e vinhos! Obrigada queridos! Como sempre tem história para contar no meio, mas conseguimos renovar os nossos vistos! Nossa semana em Bordeaux também foi boa, principalmente para o Eric que se apresentou (com sucesso!) e trocou figurinhas com bastante gente e interessados no trabalho que está fazendo. Adoramos Bordeaux, pena que foi tão rápido e corrido, não deu para passear! Mas como esse blog é sobre outras áreas vamos parar por aqui!!

Essas duas semanas na França já nos deram "pistas" das coisas que não tivemos muito tempo de assimilar desde que chegamos aqui. Serviu para nos darmos conta, pelo menos um pouco, do antes e do depois, das "diferenças" entre esses dois mundos e constatar, mais uma vez, que falamos muito, podemos falar por horas, mas não chegamos a exprimir exatamente o que se passa. Isso gera um certo vazio, por que temos a sensação que falamos muito e nada ao mesmo tempo, mas mesmo assim uma satisfação enorme de que aquilo que vivemos, em qualquer circunstância, ninguém pode viver em nosso lugar!

Bem, cá estamos de novo! Chegamos no sábado a noite em Ouagadougou, mas ficamos até a quarta-feira porque o Eric tinha reuniões de trabalho. O legal dessa vez em Ouaga foi que na terça fomos numa conferência no CCF seguida da exibição de um documentário muito interessante: Let's make money - http://www.letsmakemoney.at! ASSISTAM! A conferência foi de um agrônomo que participa do documentário falando sobre as atividades agrícolas daqui, o que reflete diretamente na situação econômica do país... Burkina Faso é 80% agricultura! Mas o documentário mostra outras "realidades" também, vale muito a pena ver para deixarmos de ser ingênuos!

Chegamos em Dédougou e encontramos a casa num estado como se tivéssemos fora durante meses! Muita poeira (vermelha) e muitas, muitas aranhas! Tinha até um rato dentro de casa que fez a festa e deu trabalho para o Eric! Mas as coisas já estão no lugar e várias pessoas já passaram por aqui para nos dar as boas-vindas! Eric ganhou um presente do Moussa (o marcineiro que fez a nossa cama) um quadro com o mapa de Burkina Faso e do Brasil, embaixo duas mãos dadas (uma daqui e outra de tubabu) escrito "Amizade - Fraternidade - Determinação"; feito de areia colorida, bem característico daqui. O problema é que o quadro é de vidro e moldura de madeira, isto é, nada ideal para pôr na mala! Mas vai ter que ir, vamos dar um jeito!

Também ficamos contentes porque nossa campanha deu certo! Trouxemos uma mala grande e uma pequena de doações da França e algumas encomendas. O que já demos alegrou muito o povo :) Obrigada a todos que participaram! Hoje fomos nas irmãs (Missão da Madre Teresa) levar então as doações e o pacote que as irmãs de Paris deixaram com a gente para elas ... só alegria!

Isso aí! Começando a segunda etapa! Até dezembro temos muito o que fazer por aqui! Nos aguardem!!

sábado, 3 de outubro de 2009

De passagem para o outro planeta

Estamos em Ouagadougou desde quarta-feira para pegarmos, hoje, o avião para o planeta França. Ficaremos duas semanas lá para duas missões principalmente: renovar os nossos vistos e participar de um congresso em que o Eric vai apresentar um trabalho. O congresso será em Bordeaux e no primeiro dia (dia 13) vamos comemorar o aniversário do Eric também!!!

Bem, mas em Ouaga as coisas acontecem também, não podia ser diferente. Pra começar, a viagem! Olha, é nessas horas que reforçamos que tudo tem que ter seu lado positivo! Saímos de casa às 8h (com bagagens pois já deixaremos algumas coisas na França) para pegar o ônibus das 9h. Mas o ônibus saiu depois das 10h. Não tem chovido (aliás faz uma semana que não chove e o calor é intenso) mas mesmo assim a viagem foi demorada pois além das estradas serem ruins, dessa vez o motorista era lento. Resumindo, fizemos os tais 230 Km de Dédougou a Ouaga em 7h! S E T E H O R A S! Num cAAAlor e com galinhas nos pés! Ficamos o resto do dia mal humorados! Temos mesmo que vir antes quando ainda se tem pela frente mais algumas horinhas de avião, não dá para fazer seguido. Aliás, não é bom contar com a previsão de quanto tempo leva de um lugar para o outro pois tudo pode acontecer. Aprendemos, definitivamente, que aqui o dia de pegar estrada é o dia de pegar estrada e mais nada, dependendo do que for fazer melhor viajar 2 dias antes!

Está tendo aqui um salão de turismo e, esse ano, o tema é roupa tradicional. Fomos visitar porque se tudo correr bem e o trabalho render, quando voltarmos da França vamos nos aventurar por ai, já que até agora com as chuvas não foi possível. A feira não é tão grande e em um dos salões tinham uns stands de parques nacionais e passeios tipo safari. Tinha também dois macaquinhos, pelicanos, tartarugas, hiena, alguns pássaros diferentes, etc. Estávamos então fuçando pra encontrar umas dicas legais. O nosso choque foi o seguinte: nos deparamos com um panfleto da Reserva da Fauna da Comoe - Lebara que oferece a caça de animais selvagens com a seguinte tabela:

Taxas de abate (espécie - preço na moeda local e preço em euro):

Búfalo = 430 Euros
Roan (?) = 460 Euros
Oribi = 46 Euros
Babuíno = 31 Euros
Macaco = 23 Euros ... entre outros...
Observação: Em caso de abate de fêmeas ou filhotes, a taxa é o dobro.

Sem contar que num stand passavam vídeos mostrando a "aventura" e em todos eles fotos de "tubabu" sorrindo, abraçado com um nativo, com a arma na mão e com o animal morto... claro. Que tristeza!

Achávamos que fosse proibido... ficamos chocados com a naturalidade com que apresentam. Perguntamos para um expositor o nome de um dos animais, que era o mais caro da lista e aparecia em muitas fotos. Agora já não lembramos o nome mas ele disse:

Ele: "Ah, esse é lindo, é grande, selvagem!"
Ju: "Então, por isso mesmo que não pode caçar e matar!"
Ele: "Hum... mas temos que valorizar também!"

???? Triste demais mesmo.

Passamos também no mercado para comprar lembrancinhas... temos que nos preparar antes. Tem que ter M U I T A paciência, teve uma hora que contei, tinham 11 vendedores cercando a gente! Onze falando no teu ouvido. Não tem como andar no mercado para ver as coisas tranquilamente. Se você demonstra estar interessado num produto qualquer, vem 5 atrás te mostrando outras opções. Além daquela história toda para negociar o preço e isso toma tempo. Enfim, uma vez vale à pena rsrsrs

Nesses dias também tem tido concertos no CCF, onde a Anne trabalha. Assistimos o show do Mikea, uma banda de Madagáscar muito boa que ganhou ano passado um importante prêmio descoberta e estão fazendo uma turnê na Africa (aqui tem audio e vídeo deles). Adoramos a musica deles, bem diferente! Nesse dia conhecemos o Daniel, um carioca que mora aqui e namora uma amiga da Anne. Nós 3 sentamos juntos ao lado de outra brasileira, a Marília, que ouviu a gente falando português e... nessa hora, passou a Iara, a petropolitana que tínhamos conhecido da outra vez com mais uma brasileira. Éramos 6! 6 brasileiros em Ouaga!

Hoje então passaremos a noite sem mosquiteiro, no ar condicionado do avião (que aliás nunca desejamos tanto) mas sem o barulhinho dos grilos também, para passarmos duas semaninhas corridinhas na França, encerrando nossa turbulenta e emocionante primeira fase em terras africanas.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Quando a chuva vem não é para brincar!

Na quinta passada fui à Konkouykoro, próximo à fronteira com o Mali, para visitar um agricultor. Por volta das 16h30 resolvi "pedir a estrada", como eles dizem por aqui quando chega a hora de ir embora. São duas horas de viagem entre Konkouykoro e Dédougou, em pista de terra, e eu não queria chegar depois do anoitecer. O agricultor me diz que a chuva estava pra chegar e que talvez fosse melhor eu passar a noite por lá. No início quis me apressar mas logo vi que a chuva era pra valer e estava mesmo chegando! Mesmo não tendo previsto ficar em Konkouykoro, estava parecendo que o mais sensato seria mesmo passar a noite por lá. Disse que não tinha trazido nada e que precisava avisar minha esposa da mudança de planos. Ele com muita naturalidade me mostrou que tinha um mosquiteiro para eu poder dormir tranquilo e me chamou para irmos num canto do vilarejo onde há um pouco de sinal de celular. Disse "logo ali na frente daquela porta" e eis que me aproximando uma mísera barra de sinal apareceu na tela do celular. Liguei pra Ju para avisar que não dormiria em casa, mal consegui falar pois a ligação estava muito ruim e o vento já soprava forte mesmo, mostrando que a chuva estava chegando. Aliás, ela chegou no meio do telefonema! comecei a me molhar e quando desliguei vi que o agricultor, muito simpático, estava atrás de mim segurando uma bacia para que eu me molhasse menos! Voltamos pra casa dele correndo e a chuva caiu pra valer! uma hora e meia de chuva forte mesmo! Dai ficou claro que foi melhor ficar mesmo! com aquela chuva, na estrada de terra, não ia prestar!

Foi assim que passei minha primeira noite realmente na zona rural do Burkina Faso, sem eletricidade, nem água corrente, na casa simples e acolhedora desse agricultor. Conversamos um bocado mais quando a noite foi caindo. Fui dormir por volta das 20h30 como o resto da família e no dia seguinte acordei bem cedo para pegar a estrada, às 6h. De café da manhã uma espécie de sopa de cereais fria, feita com suco de tamarindo! muito bom!! Descobrimos que o pneu da moto estava furado (tinha esvaziado durante a noite). Agora imaginem se eu tivesse insistido em pegar a estrada com a chuva e o pneu furado!?!?! ainda bem que fiquei! Ele mesmo consertou o pneu e lá pelas 6h30 eu já estava pegando a estrada. Viagem tranquila de volta pra Dédougou.

Para vocês terem uma ideia do que falamos sobre a chegada abrupta das chuvas por aqui, vejam aqui fotos de um outro dia em que a chuva estava chegando lá em Dédougou, até parece cenas do filme Independance Day! Ah! Essas fotos são do nosso amigo Bruno, do grupo de portugueses que passaram as férias por aqui.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Bobo-dioulasso

Nosso último final de semana da primeira fase aqui na África foi ótimo. Precisávamos desse tempo! Fomos para Bobo-dioulasso que fica à 180 Km de Dédougou. Bobo é considerada a segunda cidade do Burkina, tem como símbolo o djembé, instrumento musical que representa a cultura dos povos da região. Saímos no sábado de manhã e fomos de moto porque a estrada é toda asfaltada até lá. Fomos nós dois na nossa moto e o Pierre levou a Janete de carona na moto dele. A Janete é a sobrinha da Francine que mora em Bobo mas passou uns dias de férias aqui. A Anne veio de Ouaga. No início foi legal, mas depois de um tempo doeu bastante o bumbum! Fizemos duas pausas na estrada, estava muito quente e a paisagem estava linda, africana mesmo! Assim que chegamos na cidade, perto do meio-dia, nossa moto pifou! A sorte foi que paramos bem em frente a um senhor mecânico que foi super legal. Ele é militar aposentado e estava na ativa na época do Sankara (ex-presidente assassinado que iniciou a revolução do Burkina Faso).

Bem, situação resolvida e fomos para o albergue deixar as nossas coisas e almoçar. O albergue se chama Zion, é pequeno, bem simples e gostosinho, só tinha a gente e mais quatro pessoas hospedadas. A dona se chama Camile (uma francesa totalmente fora do padrão) casada com um burquinabês, eles têm duas filhinhas. Pela primeira vez desde que chegamos aqui vimos uma criança brincar com brinquedo de verdade. Elas estavam brincando de boneca e a menorzinha amarrou a boneca dela nas costas com um tecido como as mulheres fazem aqui com os bebês... uma graça! O clima é bem legal no albergue, tem um restaurante e funciona um bar, de vez em quando tem shows, vendem artesanato... e como cita o guia Routard "o clima é rasta e às vezes bastante esfumaçado". A Camile cozinhou pra gente e fez pratos vegetarianos especialmente nós :)

Ainda no sábado fomos no mercado municipal. O mercado de Bobo é bem legal, maior e bem mais arrumadinho do que o de Dédougou. Ele foi totalmente reconstruído e restaurado e desde 2001, quando abriu novamente suas portas, atrai muitos comerciantes de Guinée, Mali, Ghana, Costa do Marfim e turistas, tudo isso porque Bobo é bem situada geograficamente falando e se desenvolveu muito nos últimos anos. Mas a cidade ainda preserva antigos bairros e costumes dos vilarejos do interior, o animismo ainda é bastante praticado e há também uma forte influência do islamismo... um conjunto de variedades, misturas e etnias que mantém o seu charme.

Infelizmente não tivemos muito tempo no mercado pois ele fecha cedo, ficamos umas 2 horas que passaram muito rápido. No mercado tem de tudo (roupas "modernas", produtos de beleza, cestos, tecidos tradicionais, peças de cerâmica e artesanato bem original)! Andamos pouco por lá e ficamos um bom tempo numa mesma tenda negociando preço. Um barato! Quando chegamos fomos cercado por um senhor (Jacquie) que nos levou até a tenda dele, só artesanato (colares, estatuetas, mascaras, tecidos)... ele é um bom comerciante mas nós já pegamos toda a "manha" deles também e pagamos bem menos da metade do preço inicial!

Saindo do mercado fomos para casa descansar um pouco. Jantamos e fomos para o maquis Bois d'Ebène (Bosque do Ébano) onde teve o festival de música que a Anne veio para trabalhar representando o Centro Cultural Francês de Ouaga. A Janete e um primo dela veio encontrar a gente também. Foram 11 grupos de música tradicional, moderna e "fusão". Rimos muito! Os grupos são bons mas o som estava horrível e a "performance" dos apresentadores e do que parecia ser o "chefe de palco" divertiu muito a gente! Teve uma banda tradicional completa com uma cantora que é até conhecida, mas tinha no grupo deles um dançarino que não tinha nada a ver com o que estava acontecendo, ele fazia uns passos de dança tradicional com balé moderno e yoga (ele fez até uma invertida no palco) com uma roupitcha que estava muito engraçado, apelidamos ele de Ney Mato Grosso Burquinabês (guardada as devidas proporções, que o Ney Matogrosso não se sinta ofendido - não tem comparação)!

No domingo acordamos calmamente, bem no ritmo local, sem pressa para nada, demoramos para tomar café, para comer e para sair. Fomos visitar a Guinguette que fica dentro da Floresta Sagrada do Kou (onde nasce o rio do mesmo nome). é simplesmente um local FANTÁSTICO! O local é conhecido por Guinguette porque esse é o nome dado a um espaço que os colonizadores construíram no meio da floresta para fazer festa nos domingos. Até um tempo atrás era permitido tomar banho nos rios e nas piscinas naturais. Tem locais para rituais animistas e ainda é bastante frequentado para sacrifícios e dependendo da época aparecem os elefantes e os hipopotamos. Adoramos visitar essa floresta, nos sentimos no cenário do Indiana Jones! Como nada é perfeito os mosquitos irritaram um pouco mas nada perto da satisfação de estar ali!

Logo depois desse passeio paramos na estrada para comer alguma coisa. Hum! Que lugarzinho gostoso! O engraçado é que as galinhas ficam soltas por ali e de vez em quando passava o cozinheiro para matar uma delas para cozinhar!

Aproveitando ainda para conhecer mais alguma coisa em Bobo, passamos na antiga mesquita (Mosquée de Dioulasso-Bâ) datada de 1894. Já estava escurecendo e não conseguimos tirar fotos, vai ficar para a próxima. A mesquita é realmente diferente, sua arquitetura é sudanesa (do Sudão) e ela é toda feita de barro. As torres (minaret = de onde os fiéis são chamados para rezar) são na forma de cones e toda ela foi erguida com paus de madeira. Conta a história que no fim do século XIX o rei de Sya (antigo nome de Bobo) pediu ajuda ao chefe religioso dos muçulmanos para se defender do ataque de Tiéba le Grand (rei de Kénédougou). O religioso aceitou em troca da ajuda do rei para construir essa grande mesquita. Mas ela teve que ser construída onde também são feitos rituais animistas, e parece que os dois grupos vivem em paz, respeitando os horários e festas de cada religião.

Ainda fomos mais uma vez no Bois d'Ebène para o encerramento do festival. Dessa vez para assistir os vencedores. Foi mais divertido ainda, dessa vez o Pierre foi convocado para entregar os prêmios também e o convite veio da forma mais engraçada "Anne, qual o nome do teu namorado? Não tem mais ninguém aqui pra entregar os prêmios!" E os apresentadores começaram dizendo que as personalidades presentes é que entregariam os prêmios e certificados! Tínhamos jantado lasanha no albergue e ficamos com vontade de comer um doce, como quem não quer nada perguntamos no bar (que também é restaurante) se tinha algo doce para comer. Primeiro a garçonete responde "eu não sei, eu não sou a cozinheira" mas ela chamou o cozinheiro, um senhor já, que nos propôs banana flambada e crepe!!! :) Estava bom! Ele veio fazer as bananas na nossa frente e tudo!

Ainda não acaba por aqui nossas aventuras em Bobo. Na segunda de manhã saímos cedo porque combinamos de voltar de ônibus. Na gare, aquela cena, todo mundo chegando com tudo pra colocar no ônibus: sacos, cestos, animais, motos, etc. Ok, chegamos e fomos providenciar o "embarque das motos", eles embalam com papelão e isso demora um pouquinho. Mexe daqui e dali, ainda teve uma cena de um cara empurrando uns pacotes de papelão para caber não sei o que e eis que a caixa arrebenta e começa a vazar o conteúdo: peixe fresco! Dá a hora do ônibus partir e nada. Nessa eles já tinham tirado e recolocado a roda da nossa moto para caber no bagageiro (dessa vez o ônibus tinha bagageiro). Ok, meia hora depois (já estava bem quente) estávamos dentro do bus sentados esperando ele sair. De repente um movimento, gente descendo e falando "é para descer, temos que trocar de ônibus". Nos olhamos os três "trocar???" - observação: tudo aquilo que vem no ônibus já estava "arrumado" - desce tudo, sobe tudo... saímos com uma hora e meia de atraso de Bobo! Enfim!? Ainda em Bobo o ônibus faz uma parada e entra um senhor com um pneu de caminhão DENTRO do ônibus, isso mesmo, pneu de caminhão, sujo, e para ajudar um tonel de plástico de 130l por cima!

Definitivamente, ganhamos pouco mas nos divertimos muito!!!

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Final do Ramadam

Esquecemos de contar um acontecimento do final de semana passado (na verdade a Internet estava um caos). No domingo (dia 20 de setembro) foi festejado o final do Ramadam. Na noite do sábado, em que se completam os 30 dias de jejum, os muçulmanos devem ver a lua que marca o fim desse período, digo devem porque quando está nublado e ela não aparece uns telefonam para outros que a viram e a televisão costuma confirmar também, e no dia seguinte é festa, um dia festivo, feriado para todos! Nesse ano esse dia caiu num domingo e então, como é de praxe por aqui, o feriado passa automaticamente para o dia seguinte; se não, não tem graça né!? Domingo não é o mesmo que feriado, ora bolas!

Tradicionalmente as famílias passam o dia reunidas, recebendo amigos e fazendo visitas e por isso se faz muita comida. Fomos convidados para passar na casa do Sidibé (um amigo da UGCPA). A esposa dele preparou uma super salada e frango assado pra gente. Mas, o estranho é que sentamos para comer nos quatro (nós dois + Pierre e Anne) com o Sidibé. Sua esposa, filhas e o restante da família não comeram com a gente. Saindo dali passamos na casa do Abdoulaye, tradutor do Pierre. A esposa dele também tinha cozinhado pra gente, arroz com molho e depois um macarrão com frango (já não aguentávamos mais). E ainda passamos na casa de um amiguinho do Eric, um rapazinho que vem de vez em quando em casa e nos convidou para passar na casa dele também. Fomos, mas ele tinha saído para fazer uma visita, até achamos melhor porque já não dava para partir para o quarto almoço do dia!

é um dia de festa e de perdão para os muçulmanos, eles se visitam para compartilhar e pedir perdão para os amigos e familiares por alguma coisa que tenha acontecido no ano que passou. Eles se arrumam para esse dia, às vezes com roupas novas, e comemoram bastante.

Aproveitando o feriado na segunda, nosso amigo Armand nos convidou para almoçar na casa dele. Ele não é muçulmano, mas não queria que fôssemos para a França sem conhecer sua família. Fomos nós e o Pierre, e o Armand convidou um amigo dele pra conversar com a gente também. Chegando lá as irmãs dele tinham preparado um salada, um tô (o melhor que comemos até agora) com um molho de folhas (?) e depois frango de panela. Como podem ver, estamos sempre na situação delicada de comer carne ou não. Para fechar, ainda nos ofereceram uma travessa de pipoca com raspas de côco por cima. Tinha suco de tamarindo (uma delícia) e de gengibre e tudo estava no capricho! Armand e a mãe dele (uma senhorinha) comeram conosco e depois ele chamou seus irmãos para se apresentarem para gente. Foi tudo carinhosamente pensado por ele...