sábado, 1 de agosto de 2009

Vacances Loisirs

Hoje foi o encerramento de um projeto de que participamos aqui em Dédougou. Vacances Loisirs (Férias Lazer) é o nome da colônia de férias organizada pela Associação Solidariedade Arte e Cultura. O Senhor Ganou (Diretor Regional de Educação - DREBA) me apresentou para o Armand, que coordena essa atividade (sem medir esforços) e desde a primeira conversa as portas ficaram abertas!

A colônia de férias não é gratuita, mas o preço que as famílias pagam é simbólico, cobre os lanches das crianças e alguns materiais. Todos os organizadores e animadores trabalham como voluntários. Esse ano foi a terceira edição e tiveram 40 crianças inscritas entre 9 e 14 anos. Foram duas semanas de atividades: música, teatro, dança, palestras, esportes, informática, jogos tradicionais...

As crianças visitaram o governador da região, a direção de ensino e a prefeitura... com visita guiada e tudo! Elas faziam pequenas apresentações e perguntas (previamente combinadas) para as autoridades. Interessante! O que me chamou atenção foi a certa facilidade de levar um grupo de crianças (em colônia de férias) para visitar o governador, o prefeito, etc com hora marcada. São pessoas de fácil acesso realmente. Armand pediu minha ajuda para tirar fotos para eles terem alguns registros e poderem divulgar mais o projeto. Com isso eu tive a oportunidade de conhecer os espaços públicos também!

Eu conheci o grupo na segunda semana da colônia e fui muito bem recebida por todos desde o início. O mínimo que fazemos é bastante para eles e isso me fez muito bem que esse início é muito difícil pra gente. Conheci um rapaz francês (Emilien) que está por pouco tempo aqui fazendo um estágio na rádio da cidade. Ele conheceu o projeto no ano passado e tem ajudado desde então. Ele se ofereceu para ajudar nas atividades de informática com as crianças e quem "empresta" os computadores é o CLAC (Centro de Leitura, Arte e Cultura). Eu apareci justamente na semana em que o Emilien teria que viajar e assim as crianças tiveram mais duas aulas de informática comigo. (Matei saudade!) Apesar do pouco contato que eles têm (a maioria somente nesta ocasião), eles dominam rapidamente o "brinquedo" e até que avançaram no tempo que tivemos... 36 crianças para 4 computadores em 1 hora! Isto é... uns 15 minutos para cada grupo, 3 crianças por computador.

Além dessas duas aulas eu também tive uma hora com eles para falar sobre o Brasil, mostrei fotos e falei muito genericamente sobre nossas paisagens, animais, praias, rios, índios, cachoeiras, comidas, frutas, legumes, bebidas, capoeira, Pelé, Ayrton Sena, Lula... eu aproveitei para falar um pouco sobre a relação histórica entre o Brasil e a África. As crianças adoraram! Ficaram encantadas com a quantidade de água que temos, com os animais e com a capoeira (cantamos juntos "paranauê"). Perguntas: se no Brasil tinha cachoeiras grandes, qual a principal atividade econômica no Brasil, como falar em português as saudações principais (bonjour, au revoir, etc)...

No final... falando no Brasil... teve uma partida de futebol e o Eric veio para participar também! Foi a maior festa! O professor de Educação Física fez aquecimento e tudo... tudo organizado! Eric jogou com o time dos pequenos e dos grandes... os pequenos brincaram mais do que jogaram, mas os grandes levaram a sério! E o "Brasil" ganhou de 2X1!

O encerramento foi legal. As crianças apresentaram danças, poesias e peças de teatro para os pais e as autoridades presentes. Teve entrega de diploma e tudo! Tanto o coordenador do projeto (Armand) quanto o Diretor da DREBA (Ganou) nos agradeceram muito pela nossa colaboração e participação... fomos até citados! Eu falei das atividades que fizemos, mostramos para os pais o jogo "morto-vivo" e fui convidada para entregar um diploma. Depois ainda teve uma pequena confraternização com os pais e um lanche com as crianças... mas não ficamos até o final, o Sidibé (colega da UGCPA) tinha pegado o computador emprestado com o Eric para fazer uma reunião e queria passar em casa para a tradicional visita de boas-vindas!

A visita foi boa, Sidibé nos contou um pouco sobre a sua trajetória profissional e nos explicou varias coisas culturais. Por exemplo, ele comentou que nós ocidentais, geralmente falamos abertamente se estamos ocupados ou se temos um compromisso quando alguém nos faz uma visita ou quando a visita dura e precisamos sair. Mas aqui, diz ele, nunca, nunca vão falar que você chegou numa hora indevida ou que precisam sair. Vão sempre te receber, tocar a conversa tranquilamente e dar um jeito de avisar (discretamete) a pessoa que está esperando ou simplesmente deixar de fazer o que estava previsto...

Bem, tivemos a oportunidade de conhecer esse projeto logo no inicio da nossa temporada aqui e foi ótimo! Estivemos com eles por pouco tempo (algumas horas espalhadas na semana) mas isso ajudou a nos sentirmos mais à vontade e a chegar aos poucos. As crianças são sempre crianças como em todo canto: curiosas e espontâneas! Um exemplo: na fila do aquecimento antes do jogo, os meninos ficaram passando a mão no braço do Eric, achando estranho a quantidade de pêlos! E na hora da troca de time, quando o Eric entrou para o time dos "sem-camisa" algumas crianças morreram de rir! Deve ter sido a primeira vez que eles viram um branco peludo!!! Os animadores e organizadores do projeto foram muito legais e atenciosos conosco (ganhamos sanduiche, amendoim, suco, sacolé...) e sempre que puderam nos agradeceram pelo pouco que fizemos. Gostamos muito dessa iniciativa, infelizmente o comum aqui é passar as férias fazendo nada, na rua ou trabalhando duro (no campo ou em casa). Com esse projeto as crianças se reúnem para fazer atividades a que pouquíssimos têm acesso aqui, nem mesmo na escola. Eles querem continuar o projeto nos próximos anos e quem sabe ocupar as crianças por mais tempo, mas para isso dependem sempre de ajuda. Dificilmente estaremos aqui ano que vem, mas pretendemos ajudar de alguma forma. Que tal nos reunirmos numa vaquinha e proporcionar mais momentos como esses para mais crianças ou por mais tempo? Topam? Lembrem-se de que o Real e o Euro valem muito aqui! Garanto que essa doação chega nas mãos de quem sabe (esperamos) o que fazer com ela!

Selecionamos algumas fotos, elas mostram as atividades da colônia de férias e também um pouco mais de como se vive por aqui...
Ala ka dugu "nh"uman gwe!
(Que Deus nos faça passar uma boa noite!)

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Aw ni wula!

Agora somos também estudantes de Dioula!!! uma das línguas locais do Burkina Faso.
Aw ni wula
quer dizer boa noite! Além de ser a língua local da região de Dédougou, o Dioula é importante aqui na África Ocidental pois é uma língua comercial; mesmo que não seja a língua de algumas cidades no Burkina podemos nos comunicar usando ela! Eric, Pierre e eu estamos fazendo 3 aulas por semana, à noite. O nosso professor é o Laurent, um burkinabês, pra variar gente boa, que é formado na área de letras, conhece bem as duas línguas (Francês e Dioula) e inclusive faz traduções nos vilarejos onde o povo é praticamente analfabeto. Estamos aprendendo a origem de algumas palavras, é bem interessante, o difícil mesmo é por em prática, pois o Dioula não é parecido com nada que conhecemos! Por exemplo, eles chamam o adubo de nogo e o adubo químico, produto químico, eles chamam de tubabu-nogo que significa adubo dos brancos! Lembram que as crianças chamam a gente na rua de tubabu? Pois é... muitas palavras que pra eles estão associadas à cultura ocidental, eles acrescentam o "tubabu" para distinguir do familiar. Mas o nogo está escrito errado, na verdade o alfabeto deles é um pouco diferente e o "o" da palavra nogo por exemplo é uma vogal parecida com um "c" ao contrario, em meia-lua e se lê "ó".

Bem, fora nossas descobertas com o Dioula, a semana foi ainda de "arrumações". Chegou a nossa cama, um armário e uma mesa de escritório, tudo bem simples, naquele jeito que contamos aqui... mais ou menos bem feito. Chegou também a nossa geladeira (tipo frigo-bar)! Isso foi bom! Mas foi uma história! Depois do Eric negociar aqui e ali, o Moussa ligou para o amigo dele trazer de não sei onde, era pra chegar na segunda-feira. Mas, parece que o ônibus quebrou na estrada e ficou. Liga pra e pra , chega hoje, amanhã... e finalmente chegou dois dias depois, na quarta-feira. Como tem chovido quase todos os dias desde o início da semana, as estradas estão ruins e pode ser que a geladeira tenha dormido mesmo na estrada...

Falando em chuva, hoje choveu muito! Muito! E descobrimos outras goteiras pela casa, não é só uma como tínhamos pensado! Tivemos que mudar de lugar a nossa mesa com nossos livros, estava quase tudo arrumado! Mas tudo bem, até temos uma cortina pra separar o box do resto do banheiro. Quem sabe agora paramos de molhar o vaso durante o banho! Só sei que numa noite em que a chuva veio de madrugada eu acordei o Eric... fiquei com medo da chuva que nem criança assustada! Muito forte, ventania e muito barulho no nosso telhado!

Vários vizinhos vieram visitar a gente! Entram, chegam, sentam... conversam e se mostram surpresos quando falamos que somos do Brasil! Todos ligam logo ao futebol e às novelas (aqui está passando "Páginas da vida"). Quem vem mesmo são as crianças. Hoje, logo depois da chuva, Eric ouviu um barulho no quintal e entrou em casa falando "Ju, tem umas 8 crianças fora, sentadas na varanda!" rsrs Eu perguntei para as crianças o que elas faziam nas férias (aqui estamos nas férias de verão, aulas em setembro) e a resposta é sempre "nada" ou quando são as meninas "lavar roupa, prato, cozinhar, etc" e os meninos "cuidar dos animais, buscar água". Crianças aqui trabalham, principalmente as meninas! Mas como estava na hora do almoço e tínhamos que esperar a "ciesta" acabar para sair, eu perguntei se eles gostavam de desenhar... e os sorrisos tímidos me deram a resposta. Entrei, busquei papel, canetinha e lápis de cor... passamos uns 30 minutos desenhando... todos querendo mostrar o desenho! Contentes! Uns 3 pequenos não entendem francês e eu muito mal o Dioula, mas os desenhos e o colorido expressaram a alegria deles também!

O Azer também veio aqui um dia desses, o Eric foi buscar ele em casa pra passar período da ciesta com a gente. Ele pediu banana e biscoito, deu umas voltas e depois desenhou a casa com um baoba no quintal! A Leticia, tia dele que está passando as férias aqui, não pôde vir... a Francine não deixou... ela tinha muito trabalho pra fazer em casa, ficamos surpresos e chateados, pois havíamos prometido e ela é uma criança, mas tampouco podemos reagir.

Nossos amigos Anaïs (canadense que trabalha temporariamente na UGCPA), Ismael ("irmão burkinabês" da Anaïs ), Youl e Pierre vieram aqui também... falamos de tudo um pouco! Até vídeo do Ayrton Sena rolou! E até a nossa vizinha de cour, Natacha, se sentou com a gente! Tudo regado à pipoca, amendoim e cerveja!

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Toi, mon ami...

Semana passada, além de todas as peripécias que contamos, encontramos um sábio africano! é, acho que podemos chamar assim nosso novo amigo Fidèle Toé. Ele nos foi indicado por um colega da instituição que me recebeu por aqui (UGCPA). Não sabemos ao certo sua idade, mas tem seus cabelos brancos, e por ser um negro vocês sabem que isso significa muita experiência! Ele é do ramo das comunicações, foi jornalista, documentarista e entre idas e vindas trabalhou um bocado em contextos multiculturais, ou melhor ajudando ocidentais a entenderem um pouco melhor as culturas locais (daqui da região onde estamos). Fala sei quantas línguas, viajou pra tudo quanto é canto e em nossa primeira conversa nos indicou um livro: Toi, mon ami (Você, meu amigo), escrito por um canadense André Beaudoin, que viveu em Dédougou um tempo, e teve a sorte de encontrar o Fidèle para ajuda-lo em sua integração às comunidades daqui. O livro é um relato das impressões de um ocidental face às tradições locais, e por varias vezes é transcrição de diálogos entre o autor e o próprio Fidèle. D e v o r a m o s esse livro! e voltamos a procurar Fidèle para discutir alguns pontos mais intrigantes!

Ele não conversou com a gente sobre o livro, nos recebendo em sua casa, mas também passou o resto do dia com a gente, nos levando em locais históricos da cidade, nos apresentando pra todo mundo que encontrava pelo caminho, nos levando pra tomar cerveja e depois pra jantar! Uma recepção digna da impressão que vínhamos fazendo dos burkinabeses.

Na nossa conversa sobre o livro, um dos assuntos que mais nos interessou é como as comunidades locais lidam com a morte. "O nascimento pertence à mãe, a vida pertence ao individuo, a morte pertence à sociedade." Fidèle nos explicou como que muitas vezes o tempo entre a morte e o enterro pode ser bastante longo, o importante é ter tempo suficiente para que os conhecidos do falecido venham ao enterro, e todos os preparativos possam ser feitos à altura daquele que se foi. Por um lado, o enterro é um momento solene de homenagens ao que se foi: um representante de cada ramo da sociedade em que o individuo atuou (um familiar, um colega do trabalho, um vizinho, ...) toma a palavra para dizer como e porque o falecido fez a diferença nesse domínio. O mais interessante é que, além desse caráter de homenagem, esse evento é uma verdadeira coletânea oral dos conhecimentos do falecido, uma maneira de transmitir a todos os presentes um pouco do saber daquele que se foi. Trata-se no fundo do famoso KM (knowledge management, gestão de conhecimentos) que todas as empresas do ocidente penam para colocar em pratica atualmente! e eles fazem isso pra toda a sociedade! uma reciclagem oral da sabedoria do falecido para que seu conhecimento possa se integrar ao da sociedade. Por isso eles dizem que a "morte pertence à sociedade"!

Aqui, cada individuo tem o seu valor, independentemente das suas conquistas profissionais ou pessoais. Após a morte, por mais simples que tenha sido a vida do falecido, haverá sempre pessoas lembrando o que ele sabia, o que ele representou para cada um dos que ficam.

Uma outra coisa fantástica sobre o povo burkinabês que descobrimos com o Fidèle é a "familiarité par plaisanterie" (familiaridade por gozação), uma brincadeira com consequências muito sérias e positivas para a paz do pais! poderia ser visto como uma estratégia geopolítica! e alias, deveria! assim quem sabe povos tão diferentes no mundo poderiam brincar sobre suas diferenças ao invés de instigar guerras com base nelas. Existem muitas etnias no Burkina Faso (mais de 60!), no passado guerras foram travadas entre essas etnias pelo controle do território. Não se sabe bem quando nem como, mas instituiu-se na cultural geral uma espécie de permissão à gozação entre algumas etnias. Assim eles se permitem "zoar" uns com os outros, aceitando tudo com bom humor, o que serve como valvula de escape para a tensões que poderiam ser criadas pelas diferenças. Essas brincadeiras são feitas de maneira sistemática! Por exemplo: cada vez que um Samo encontra um Mossi, ele vai fazer uma piada sobre a fraqueza/estupidez/covardia/falta de educação dos Mossi, e o Mossi vai responder à altura! é uma maneira fantástica deles conhecerem novas pessoas! presenciamos o Fidèle soltando uma gozação no ar, assim como quem não quer nada, e gerar uma reação em outras mesas, o que ja serve de desculpa para puxar um papo com desconhecidos. Pra gente, presenciar esse jogo social é uma maneira divertida de conhecer as diferenças étnicas daqui. Sem a familiaridade por gozação dificilmente etnias tão diferentes como as presentes no Burkina teriam conseguido viver em paz durante tanto tempo. Mais uma lição pra todos nós! Quem dera palestinos e israelitas levassem a sério essa brincadeira!

O Fidèle será um conselheiro para a minha tese, mas sabemos que o que aprenderemos com ele ira muito além do trabalho acadêmico! é o que finalmente viemos buscar aqui na Africa! :-)

sábado, 25 de julho de 2009

Na nova casa!

Estamos atualizando o blog sentadinhos na varanda da nossa nova casa e admirando uma lua linda! A casa tem água corrente, cozinha (com pia e torneira) e banheiro (com ducha, vaso sanitário e pia)!!! Ela ainda não tem forro no teto, mas ontem choveu a noite e tivemos uma goteira :) A casa é grande para nós dois, mas foi o que encontramos!

Nos mudamos na quinta-feira, dia 23. Conseguimos uma ajuda do pessoal da UGCPA, eles emprestaram o carro pra gente poder transportar nossas malinhas (com motorista e tudo). Foi rápido, voltamos em casa e foi o tempo de arrumar o que estava fora das malas. O pessoal sabia que talvez mudaríamos, mas o Azer (filho da Francine) fez uma cara de "não estou entendendo nada" e veio perguntar para a Ju "tia, você vai viajar?" Pronto! 10 dias nessa cour foram o suficiente para a choradeira! Azer e Ju choraram como se os 6 meses tivessem passado. No final das contas é até melhor assim, essa dependência emocional não ajuda muito (nenhum lado) e para nós dois vai ser bom ter um espaço mais reservado, as crianças entravam na casa, ficavam curiosos com o computador ligado... o que na medida do tempo e das páginas da tese do Eric crescendo poderia cansar. Nem sempre estamos dispostos a dar atenção pois precisamos de concentração e descanso também e na cour tem sempre alguém pronto para conversar.

Enquanto passamos a semana vendo casas (visitamos 6) e esperando essa ficar pronta, muitas coisas aconteceram. No geral, estamos naquele processo de adaptação: sentindo muito calor, estranhando a comida, nos familiarizando com a moto, com o "trânsito" e com o som que vem das mesquitas varias vezes no dia -inclusive às 4h da manhã! - "convocando" os muçulmanos para a oração. Ainda, querendo nos acostumar com a idéia de que ficamos sujinhos mesmo todo dia (suor + poeira que cola no protetor solar e no óleo contra mosquitos). MAS algumas coisas nos agradam muito: o entardecer, o céu à noite, o barulhinho de grilo, cabra, vaca... tranquilidade e o contato com o povo!

No domingo passado fomos recebidos pelo "Monsieur le DREBA" - Ganou Gnissa (Diretor Regional de Ensino Básico e Alfabetização). Apesar de ser uma "autoridade", nos recebeu com roupa de domingo e muita simpatia! Conversamos rapidamente e no dia seguinte ele levou a Ju para visitar uma colônia de férias que ele ajuda como padrinho. As crianças estavam em circulo embaixo de um carramanchão e cantaram uma cantiga de boas-vindas para a Ju! Foi emocionante! A tarde ainda teve uma reunião com o responsável pelas Tecnologias da DREBA e na saída, o Ganou se despediu da Ju na casa dele (ele mora na sede da DREBA)... ele tem uma tartaruga enorme no quintal, ela deve ter uns 40 anos!

As 7h e algo da manhã do dia seguinte (o dia começa cedo e ligam mesmo cedo pra gente, normal) o Ganou liga: encontro com o responsável da colônia. Armand é um rapaz que trabalha no Ministério da Juventude e do Emprego, educador de formação, cheio de convicções e boas iniciativas! Entre outras, ele nos apresentou um professor de Dioula (língua local)!!! Vamos começar em breve nossas aulas particulares...

Comentários culturais: nas conversas com os homens, predomina sempre o lado machista. Os cristãos podem se casar com uma mulher, os muçulmanos com até 4 e os animistas com quantas quiserem. A mulher sempre inferior ao homem, não fica bem socialmente para ele se ela se sobressai em algo (profissional ou socialmente). Em alguns situações, depois de darem informações por exemplo, eles vêm com gracinha, sugerindo ao Eric de deixar a Ju com eles! Ou alguns dizem que queriam ter uma brasileira como segunda esposa! O Eric deixa bem claro sempre apresentando a Ju como "esposa"... isto é, casada! E independentemente da religião a mulher tem direito de se casar com um homem e ponto.

Também falando sobre o "jeitinho burquinabês de ser"... buscando comprar coisas para nos instalarmos aqui, neste caso faca para cortar legumes, colher de pau, geladeira, espanta-mosquitos... nunca tem lojas especificas ... e quando pedimos informação: "eu não tenho aqui, mas sei quem tem, quer que buscar ou quer alguém pra te levar ?" ou mandam alguém acompanhar a gente até o local ou ligam pra pessoa e marcam "passa aqui amanhã à tarde que vou ligar pro meu amigo enquanto isso". Muito engraçado! Desde ontem estamos atrás da geladeira, um frigo-bar, mas não se vende aqui. Perguntam "vocês querem novo?" E respondemos "sim! Como fazemos para escolher?" O rapaz de um mercadinho nos colocou em contato com alguém que traz de não sabemos onde... detalhe: a negociação é feita com a descrição da geladeira e é dado um preço (a marca não faz parte da descrição, segundo eles "tanto faz"). E o Moustafa, da lojinha de bacias, baldes, etc disse pra gente que o amigo dele traz até segunda igual a que ele levou a gente pra ver na lojinha de bebida ao lado... na caixa e tudo! Ai ai... falando nele, seu Eric pergunta se ele tinha escorredor de louça (????) rsrsrs ele nem entendeu... além de cozinha com pia ainda queremos escorredor? Estamos pedindo muito ?

Eric... entre idas e vindas, encontros e momentos na cour... trabalhou num artigo que tem que entregar esse final de semana!

sábado, 18 de julho de 2009

A VITÓRIA

Mensagem enviada pela amiga Reem...

Quer vencer os desafios? Confie em Deus!
Quer ser bom no que faz? Pratique!
Quer alcançar o objetivo? Jamais desista!
Quer crescer? Tenha raízes!
Quer ver resultados? Persevere!
Quer ser feliz? Esqueça o passado!
Quer falar bem? Escute melhor!
Quer aprender? Persista em ler!
Quer realização pessoal? Sirva!
Quer fazer diferença? Pague o preço!
Aqueles que nada fazem e esperam algum tipo de vitória estão enganados.
A vitória é dos que lutam, dos que agem, dos que "saem do porto".
A vitória é dos que se arriscam para alcançar o alto da montanha.
( Edilson Ramos )

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Era uma casa muito engraçada...

Seguimos com o dilema de encontrar uma casa com água encanada. Passamos os últimos 3 dias mais ou menos nessa... verdade que estamos um pouco estressados com isso para começar a pensar nas atividades aqui, chegar a ter uma rotina... efetivamente. Começa a tomar uma proporção maior ter tudo dentro de mala, não ter as coisas em volta muito limpas e... não ter uma pia ali logo em seguida! O problema é que se tentamos nos instalar melhor (mesa, armário, etc) se torna mais complicado fazer a mudança novamente, pôr de volta as coisas na mala e transportar tudo de novo. Lembrem-se: não tem táxi, apenas carrinho de mão!

Fomos ver 3 casas. Interessante como o conceito de casa é diferente. Até agora em nenhuma delas tinha o que podemos chamar de cozinha. A primeira que visitamos é enorme, fora alguns detalhes também não tem água corrente... então descartada. A segunda até tem um vaso sanitário e uma ducha dentro da casa, mas não tem pia, somente uma torneira no chão junto da ducha. Sem contar que além de grande, as paredes estão muito sujas e o banheiro... uf! Teríamos um certo trabalho para deixá-la habitável. A que vimos hoje é relativamente boa, tem banheiro dentro de casa e é nova, mas não tem ainda água corrente... mas tem vaso sanitário! O Youl e o Youssef, que estão nos ajudando, dizem que por aqui não tem muitas "casas europeias", "vocês brancos, pra ir no banheiro, sentam como se fosse numa cadeira, nós não, é no joelho mesmo!" Engraçado, nunca pensei que fosse tão complexo ter água encanada e, sobretudo, uma pia, um vaso sanitário. Será que pra eles somente os europeus têm banheiro dentro de casa? Europeu=branco? Acho que não precisamos contar aqui muitos detalhes dessa parte de banheiro, ? Não tenho aqui dados concretos, mas pode ser que realmente uma boa parte da população mundial vive nessas condições, melhor, o que nós brancos chamamos de "condições". Quanto à cozinha... os africanos ficam boa parte do tempo fora de casa, no quintal. Cozinhar é à lenha, no chão... faz um certo sentido ter que ser fora de casa ? Com esse calor que faz aqui ter uma "lareira" dentro de casa é desnecessário!!! Mesmo assim estamos estudando como adaptar as coisas aqui onde estamos, se a solução for ficar (pois não encontramos até agora nada que valha à pena). Hoje compramos um fogãozinho à gás, de 3 bocas... pelo menos para podermos cozinhar algo mais familiar e um penico para eventais emergências. Ontem à noite choveu torrencialmente... e ai? Como fica?

Mudando de assunto... porque não é isso que temos feito por aqui... ainda na quarta, depois do desfile e fotos da noite anterior, uma vizinha veio pedir para tirar fotos dela com uma roupa tradicional também. Dessa vez foi rápido, a Francine trocou de roupa para tirar foto com ela. Interessante ver que pra eles ainda é algo diferente tirar foto! Ontem eu tive uma ideia para poder tirar fotos por ai! Chamei o Azer (filho da Francine, 9 anos) e a Leticia (uma das irmãs da Francine que está passando as férias aqui, 12 anos) para passear e tirar fotos dos animais! Foi uma festa!!! Comecei com os dois e teve uma hora que contei, devia ter umas 20 crianças em volta de mim. Eles entravam em outras casas, falavam com os vizinhos, tiravam fotos dos bichos, das crianças, dos velhinhos... engraçado, mais gente atrás da camêra do que na frente para ser fotografado! Uma briga pra ver como a foto ficou, como se fosse desaparecer no minuto seguinte! Foi divertido, me deu um levante e me emocionou ver a criançada se divertindo com algo diferente pra eles.

A noite o Pierre inventou de fazer crepes! Uff! Que bagunça! Trouxemos o fogãozinho à gás da Francine, fizemos a massa, molho, banana, côco ralado, leite condensado... mas não visualizem o crepe que conhecemos... foi quase isso! O Azer consegue tirar fotos direitinho e ele tirou algumas desse evento. Ah! A Leticia veio perguntar se ela podia passar a mão nas minhas pintinhas (no braço)... fofa ? Eles ficam muito curiosos, ela fez uma cara engraçada "mas o que que tem dentro?"

No mais... Eric hoje teve uma reunião com um outro senhor importante, o Fidélé Toe. Esse senhor trabalha com um pouco de tudo, ele foi um dos responsáveis pela criação da UGCPA, faz documentários, participa de associações, conhece todo mundo, etc. No final da reunião Eric comentou de mim, ele se prontificou logo em me apresentar num projeto daqui. Horas depois da reunião ele aparece aqui em casa, com um livro pro Eric e um documento do tal projeto pra mim, trata-se do WEDUS... um projeto que tem aqui em Dédougou sobre inclusão digital. Mando noticias sobre... ele disse que se eu me interessar ele vai me levar . Com isso ele comentou que tem que nos apresentar para as autoridades daqui, que é muito importante sermos apresentados e saludar os burquinabeses através de um "local". Bem... estamos agradecidos por mais essa!

"Ninguém podia fazer pipi, porque penico não tinha ali ...
mas era feita com muito esmero na rua dos bobos, numero zero"

terça-feira, 14 de julho de 2009

Le 14 juillet - 8° dia

Não estamos na França mas até que foi um dia de festa... podemos dizer. Comecei lenta porque não dormi bem hoje. Eric foi para a UGCPA (União de Grupos de Agricultores para a Comercialização de Produtos Agrícolas , onde ele fará parte do seu trabalho) e eu fui no mercado da cidade com a Anne, a Francine e o Samsum. O mercado é feio e sujo, mas muito divertido! Compramos os ingredientes para fazer pratos tradicionais a pedido da Anne que vai embora amanhã cedo.

Praticamente comemos a tarde inteira. O prato principal era o Farô, um feijão branco que é batido no pilão, passado no moinho (o pilão eles têm em casa, mas para o moinho as crianças levaram num lugar da vizinhança), batido com cebola, alho, um pouco de água e um produto natural (?) para dar consistência e diminuir os efeitos "gasosos" da digestão do feijão. Essa pasta é colocada em saquinhos de plástico e cozida no vapor. O Farô é então servido com molho de tomate, cebola e pimentão (molho vegetariano feito especialmente por nossa causa). Enquanto tudo isso ia acontecendo tivemos pratos de entrada: o Aloco (banana frita) com pão e também um bolinho frito da massa do feijão (base do Farô). E depois do Farô ainda teve um biscoitinho salgado de amendoim.

No início da noite a Francine e a Sylvie (sobrinha) trouxeram um monte de roupas tradicionais para Anne e eu experimentármos... foi um desfile com direito a sessão de fotos! Nos divertimos muito.

A noite saímos com o Pierre e a Anne para brindar a Revolução Francesa! e voltando para casa a Francine tinha preparado novamente o ! Mas dessa vez não dava mais pra comer!

Hoje a Sylvie lavou a nossa roupa (na mão). Ela cuida da casa e da Enice (a bebê). Diz o Pierre que geralmente as meninas trabalham desde cedo para juntar dinheiro para ter um dote de casamento. Bem, assim ela nos ajuda, melhor, nos tira do sufoco e ajudamos também!