Às 7h30 da manhã telefona um senhor do mercado que ficou de arrumar mandioca pra gente. Tínhamos pedido pouco, mas veio muito. Pensamos então que seria uma boa tentar fazer bolinhos de aipim... "mas com o quê dentro? Hum... queijo! O queijo das freiras!" As freiras que fazem o queijo moram a uns 5 Km de Dédougou... tudo por um queijo!
Passamos na casa da Francine e o nosso amigo Mardoché (filho do meio) estava emburrado porque não ia ter nada para comemorar o aniversário dele. Só que o Pierre já tinha combinado que eles iriam na nossa casa no final da tarde. Enquanto isso nós fomos atrás do queijo!
Chegamos em casa e fomos direto começar os preparativos e o Mardoché ajudou a gente a fazer os bolinhos! Como na casa dele não tem cozinha, tudo é legal, ele mexe em tudo e temos que ficar muito atentos, tínhamos que arrumar algo pra ele fazer logo:
Bem, nosso bolinho ficou muito bom! Delicioso! Adoramos! Ficamos suspirando quando experimentamos os primeiros e, como uma dupla que faz um ponto, vibramos: A B A L O U nosso bolinho! Falamos com tanta entonação que o Mardoché repetiu igualzinho: abalou! Rimos muito!!! Foi um sábado “agitado” depois dos dias que passei de molho com o pé pra cima! Apesar de ter recebido várias visitas :) já estava cansada!
Ai ai, que dia! Que dias! Ficamos 3 dias sem conexão para a internet e em alguns momentos até sem sinal de celular. Eric continua saindo bastante e trabalhando bastante. Eu estou trabalhando na medida do possível, pois dependo mais da internet, e tentando fazer outras coisas que depois conto!!
Bem, uma amiga do Pierre, Claire, chegou em Dédougou para passar uns dias e nesta quinta-feira ela combinou com o Youl dele ser o “guia” e levá-la em Lery (50 Km de Dédougou) para ver os hipopótamos. Ela perguntou se a gente não queria ir junto e meio indecisisos resolvemos ir. Eu não poderia mesmo fazer muita coisa pois na quinta não tinha voltado a conexão. Eric não tinha visitas agendadas, tinha que escrever, mas como ainda não tínhamos ido ver os bichinhos por causa das chuvas (o caminho é IMPOSSÍVEL) e já já vamos embora... fomos.
Lery é o local mais perto para ver os hipopótamos e onde tem o “Safari Express” – local onde os tubabus com dinheiro se hospedam para caçar. Lery fica perto da barragem do rio Mouhoun, alguns trechos são realmente lindos. No dia anterior, quando a Claire estava combinando com o Youl, tínhamos entendido que esse lugar (uma espécie de hotel), estaria aberto e que poderíamos inclusive curtir uma piscina, uma água gelada... até poder ver os “hipô”, que é sempre no final da tarde. Acontece que chegando lá, nos damos conta de que o local estava completamente abandonado! Tem um senhor que mora lá como caseiro e campo, só. Youl nos levou até o vilarejo mesmo, pertinho dali. Estava mesmo quente e ficamos umas 2 horas sentados, na sombra, dentro da cour de um amigo dele. Tinha umas 30 crianças paradas olhando pra gente, brincamos um pouco (ninguém falava francês) e voltamos para o local abandonado para fazer hora até às 16h, horário em que normalmente os hipopótamos começam a aparecer. Tentamos fazer um passeio de canoa pelo rio, mas segundo o Youl “tem muito hipô, pode ser perigoso”. Esperamos então.
Sinceramente nós dois ficamos frustrados e nos sentindo meio bobos de estar ali (como se já não bastassem todas as coisas que estão acontecendo). Finalmente, poderíamos ter saído mais tarde de Dédougou, já que tem “hora marcada” para ver os bichinhos e não seria tão cansativo, não tinha mais NADA para fazer lá e não tínhamos onde ficar, estava quente e mesmo na sombra não estávamos numa situação muito confortável. Melhor, entre as “deixas” que captamos, pareceu que a surpresa de encontrar tudo fechado, abandonado, foi só nossa.
Ok, lentamente mas às 16h chegou! Fomos então para a beira do rio ansiosos para ver os hipopótamos! Esse momento valeu à pena, cenário do Rei Leão:
entardecer, céu azul para rosa, muitos pássaros e ruídos da floresta, campo de algodão, rio calmo... água dourando com o pôr-do-sol. Silêncio. Os hipopótamos começam a fazer barulho, e aos pouquinhos começamos a ver as orelhinhas saindo da água e o chafariz que eles fazem para respirar, como as baleias.
Não deu para contar quantos tinham, uns 10 talvez. Infelizmente nenhum saiu da água de corpo inteiro, mas já foi lindo!
Pegamos então a estrada de volta para Dédougou, estrada não, trilha. E num dos trechos de areia, tivemos uma leve queda com a moto. Felizmente estávamos devagar e protegidos (calça, tênis, capacete), Eric só ralou a perna e eu machuquei o pé... tive uma luxação e agora estou com o pé pra cima! Nada grave!
Concluindo o dia, enquanto a gente estava fazendo o Raio-X do meu pé no hospital, nos parece que o Youl aproveitou a nossa ausência e cobrou da Claire um preço bem caro, 20 mil Francos, pelo serviço de guia turístico (?) ... o que também não gostamos muito, afinal ela não conhece muito o esquema.
... comemoramos assim nossos 5 meses de casados (no civil :p)
É muito legal ver a importância que as pessoas aqui dão em conhecer alguém da família de um amigo. Os agricultores com quem o Eric trabalha mudam de semblante quando ele me apresenta: “Juliana, minha esposa”. É engraçado porque como somos recém-casados não nos acostumamos ainda, muito menos com o “peso” social que isso representa (em nenhum lugar!). Bem, sendo assim, os agricultores sempre me convidam para conhecer a casa deles, me mandam presentes, etc... O Fidèle, nosso “tutor”, me chama de “a metade”. E eles ficam muito contentes quando eu “apareço”.
Na semana passada o Ouagadougou veio aqui em Dédougou, ele é um dos agricultores com quem o Eric está trabalhando. Ele me convidou para conhecer o seu “coin” (= canto, vilarejo) no dia do mercado, que aliás é difícil guardar na cabeça quando é, pois é a cada 5 dias corridos, por exemplo: se tem mercado numa segunda-feira, o próximo será no sábado e depois na quinta e assim vai. Fomos então nessa última terça-feira para Kari, o “coin” do Ouagadougou. Kari não é longe, fica a 20 Km de Dédougou e a estrada é asfaltada.
Chegando em Kari fomos recebidos por uns 3 Kg de amendoim, de presente! Amendoim do campo dele que a Marie Justine (esposa) preparrou pra gente. Ouagadougou tinha feito um programa: conhecer o seu campo, fazer um tour no vilarejo, ir no mercado e almoçar em casa. Partimos então para o campo. Atualmente os campos estão cheinhos de algodão! Está lindo! Ele mostrou como colher o algodão e estamos escalados para a colheita! O pouquinho de tudo que colhi hoje está guardado! Paramos em não sei quantos cabarés para beber (nome dado para as cours que fazem o dolô). O povo bebe muito dolô (principalmente em dia de mercado) a gente não acompanha! O mercado é legal, agitado! Comprei um tecido típico daqui bonito e provamos o benhê num formato diferente (tipo nossos bolinhos de chuva, mais massudos).
Mas a melhor cena foi voltando para casa... o Oauagadougou é muito engraçado! Andar com ele é divertido... na cour dele tinha uma “tubabu” antropóloga entrevistando dois caras, ela usava um gravador, bloco de notas, etc. Sentamos então e a esposa dele me chamou, ela estava me esperando para me mostrar como fazer o molho do baobá (nosso almoço). Então ficamos num canto e a Marie (a pesquisadora) estava num outro canto trabalhando. Num intervalo ela veio falar com a gente, foi simpática, nos contou o que está fazendo, etc. Mas sinceramente ela tem um ar de “vim aqui fazer um favor”. Bom, eis que chega o próximo entrevistado com a “cara cheia de dolô”. Ela se sentou e começou a conversar e a gravar... e o cara estava completamente bêbado!! ... Duro! Mas a cena foi divertida. No final ela “reclamou” com o Ouagadougou que nem esquentou a cabeça, tranquilão, “é, ele bebou um pouco”. Sabemos que ela mora em outro vilarejo, mas não entendemos se ele recebe ela lá para trabalhar e porque ela “reclamou” com ele, mas que foi engraçado foi!
Voltando para o almoço, (Marina essa é pra você!): a Justine fez passo a passo do molho de baobá para eu ver. Ela sabia que eu queria saber detalhes da receita para passar para a Marina e fez questão de me esperar. Difícil vai ser fazer fora do Burkina porque os ingredientes imagino que não podemos encontrar em outro lugar. Marina, vamos levar o restante dos ingredientes para você, é que achamos que era apenas a folha do baobá... pelo menos já levamos moído né?
Bem, missão cumprida, todos contentes e rumo de casa!
O que vamos contar aqui vai ficar incompleto porque a missão dessa "viagem" ainda é segredo, vocês vão ficar sabendo mais tarde!
Hoje nosso amigo Fidèle nos levou em Zaba, à 50 Km (+ ou -) de Dédougou. Fomos e voltamos de manhã mesmo. Sair com o Fidèle sempre tem novidade! Para começar, chegamos às 7h30 na casa dele e saímos por volta das 10h! Ele primeiro liga para uma das filhas dele para pedir a moto emprestada, ela chega um tempo depois e como não sabia que era para pegar estrada, disse que não dava. Então o Fidèle insistiu que precisava de uma moto e sugeriu que fosse com a moto do namorado dela. Vão buscar a moto, depois vamos encher o tanque. Enfim, nenhuma pressa mesmo. Mas o que ficou claro pra gente é o seguinte: o "velho" manda, é mais ou menos "preciso e é agora" e os filhos ou os mais novos que se viram!!! Até o tom de voz muda quando é feita a "solicitação". Um exemplo rápido: quando estávamos saindo, ele volta em casa para perguntar com qual combustível tem que encher o tanque da moto. Estávamos ainda perto da casa dele e ele avisa "vou voltar para perguntar e encontro vocês no posto". E nós: "Te esperamos aqui mesmo, é melhor né!?" Ele responde Ok e depois liga para o celular perguntando onde a gente estava porque ele já estava no posto. Ai ai esse Fidèle!
Ok... voltando de Zaba (suspense!) a gente parou em Soakui (fica mesmo perto de Dédougou) para o Eric agendar uma visita com o Felix. Felix é um agricultor com quem o Eric vai começar a trabalhar, muito amigo do Fidèle. Ele estava em Apirikui, outro vilarejo que fica do outro lado da rua, bebendo o dolô "folclórico de domingo"! Ele foi encontrar a gente na casa dele mas depois nos convidou para beber um dolô também.
A cena é típica: embaixo de uma grande árvore, sentados em troncos com baldes e cabaças em volta. Conversa vai, conversa vem... e um senhor que estava na roda relembra de um funeral que Fidèle e Felix estavam... há mais de 10 anos... tocando e dançando. Então comentei que pra gente não é comum ouvir música, muito menos "fazer batucada" num dia de funeral e nem pensar em dança! E Felix diz:
"Ah,mas pra gente, depois dos 70 anos, se não tiver dança e música no funeral de alguém, é como se essa pessoa não tivesse vivido, não tivesse feito nada na vida, não tivesse tido progenitores..."
Eles disseram que quando uma criança ou um jovem morre é diferente, não se faz nada porque ai sim é doloroso, "a pessoa não chegou a viver uma vida".
Os pais da Anne e do Pierre tiraram férias e vieram conhecer o Burkina. Hoje eles chegaram aqui em Dédougou. Foi muito legal recebê-los em casa e conversar com "gente de fora" aqui, in loco!
Eles já vão embora amanhã de manhã para Ouagadougou. Então hoje almoçaram na Francine (que ficou toda boba com as visitas), passearam pela cidade, foram no mercado, no trabalho do Pierre e aproveitaram a tranquilidade de Dédougou para descansar à tarde.
O Pierre encomendou um peixe na brasa para a janta e convidamos também o Fidèle e o Armand para comerem conosco. Isso foi de propósito. Bem, o Fidèle na verdade foi porque ele é alguém que, havendo ocasião, tem mesmo que conhecer. Ele chega, já toma o seu "posto" e se torna o centro da conversa, conta histórias e levanta assuntos polêmicos...
O Armand sim foi mais proposital. O Armand é o responsável pelo projetoVacancesLoisirs, se lembram? Ele também é o coordenador da CompagnieThéatrale de la Solidarité (Companhia Teatral da Solidariedade). Ele e a trupe acabaram de fazer um tourpela região apresentando uma peça sobre a responsabilidade civil de pagar os impostos, encomendado pelo governo e já estão preparando outra sobre o palu (o que é muito bom!). Ele gosta muito do que faz e sempre está correndo atrás para continuar seus projetos, de alguma forma. O Pierre queria que o Armand conhecesse o pai da Anne, Patrice, que trabalha numa associação para a promoção do teatro francófano que já fez bastante festivais (por exemplo) aqui na África do Oeste e em outrospaíses.
Conversamos bastante, de tudo um pouco, sobre as impressões deles dessa viagem, etc. mas também falamos de projetos e ter reunido o Fidèle, o Armand e o Patrice foi legal, saíram algumas ideias para futuros projetos e ficamos todos bem contentes com esse encontro! Agora vamos ver no que vai dar!
Depois da época das chuvas começam as colheitas e as festas para agradecer o alimento desse ano. Todos os vilarejos fazem essa festa, pensávamos que era um acontecimeto social, mas finalmente essas festas são feitas nas igrejas, cada uma na sua maneira, mas o ritual deve ser bem parecido (acho). No outro domingo perdemos a de Toma, nosso amigo Fidèle tinha nos convidado mas nas vésperas da viagem uma pessoa da família dele faleceu em Bobo-Dioulasso e então ele teve que ir para cumprir o papel dele (lembram que na etnia dele ele prepara o corpo para o funeral?).
Desde que voltamos Eric tem saído bastante para trabalhar com os agricultores da região (aliás, assim que der ele vai contar aqui as últimas novidades) e um deles, Charles, nos convidou para voltar no vilarejo nesse domingo para participarmos da festa da colheita (foi na casa dele que o Eric dormiu no final de setembro, quando a chuva veio e ele não pôde voltar para a casa). Não foi normal, mas sábado choveu bastante e parou às 8h da manhã de domingo. Nessa altura já tínhamos desistido de ir, mas o Charles ligou e insistiu para pegarmos estrada. Ele disse que mesmo que a gente chegasse lá mais tarde era para ir! Saímos então de Dédougou quase às 9h, de moto. Konkuykoro fica a 90 km, não tem asfalto, não tem luz, não tem água corrente... é um vilarejo cheio de baobás, limpo, com quase 2 mil habitantes. A viagem foi longa pois em quase todo o trajeto a estrada estava mais ou menos assim:
Chegamos meio-dia em ponto na casa do Charles, que nos recebeu muito contente, de toalha enrolada na cintura! Foram tantas informações num único dia! Primeiro ele nos convida para entrar e descansar nessas cadeiras deliciosas que eles têm por aqui, ao lado de um monte de feijão que ele tinha colhido:
e abre uma melancia suculenta! Entramos no período das melancias e essa foi a primeira do dia! O papo começa enquanto o amigo dele nos prepara um chá! Charles já um senhor, um agricultor de “médio porte” bastante experiente, já foi para o Canadá, etc. Um homem simples, tranquilo e adorável!!! Andamos pelo vilarejo com o Charles e ele foi nos apresentando quem parava para nos cumprimentar. Quando chegamos a igreja já estava lotada, mas o Charles levou a gente para o primeiro banco. A missa foi muito animada e longa, toda em língua local (o Charles traduziu alguns trechos) e mais uma vez só tinha a gente de tubabu! E as crianças!? teve uma hora que tinham umas 30 na nossa frente, admiradas, rindo e se encondendo (de costas para o altar) até que alguém veio chamar a atenção delas e levá-las de “volta para o lugar”! A dança que eles fazem é diferente das que tínhamos visto até agora, mas os instrumentos são os mesmos. Mais para o final da missa, entram homens e mulheres com as oferendas a serem agradecidas, cada um com alguma coisa na mão: abóbora, melancia, tomate, cebola, arroz, milho, pequeno-milho (tradução literal), sorgo, gergelim, frango, cabrito, um bebê... eles fazem uma roda, cantando e dançando, e vão levantando e agradecendo tudo. Sim, jogam a criança e o cabrito pra cima!
Quando a missa acabou um senhor veio dizer ao Charles que eles nos ofereciam comida; mas ficamos sem saber os detalhes. Voltamos para a casa do Charles, ele abriu mais uma melancia (2ª do dia) e a esposa dele trouxe o almoço: arroz com molho de amendoim e carne de cabra e o deguê – hum, como explicar? Uma espécie de cereal que eles fazem uma “papa”, é gostosinho - mais a panela oferecida pela igreja. A ideia então era participarmos da festa e depois voltarmos para casa, mas a missa não acabou a tempo da gente chegar em Dédougou ainda de dia e então resolvemos passar a noite lá, o que deixou o Charles contente!
Eu tinha perguntado ao Charles se em Konkuykoro tinha escola e a resposta dele foi “você quer ir lá ver?” ... saímos então da casa dele e fomos passear, agora sem pressa. Em todas as cours um grupinho de pessoas sentadas conversando, todas nos saludando. Paramos para falar com um grupo de homens que estava ao lado de uma montanha de melancias, no pé de um enorme baobá... e o sol se pondo deixou essa cena especialmente bonita. Fomos até a escola e até a casa do diretor, que muito gentilmente abriu uma melancia pra gente (3ª do dia); ele me disse que lá eles têm uns 300 alunos e 6 professores! Voltando da casa do diretor, passamos em mais 3 amigos. Um deles, Gabriel, nos deu um saco de ovos de galinha d'angola e fez um monte de perguntas sobre o Brasil! Na casa dele jantamos (arroz com molho de amendoim e carne) e numa outra comemos o degê de novo. Notei que o Charles também não recusa nada do que nos oferecem, “é um dia de festa e nos dias de festas, comemos juntos, como os que são amigos fazem”, disse ele. Aqui é assim, aqueles que dividem um prato, são amigos; se te dão o que comer, é porque te consideram como um amigo. E, voltamos para a casa do Charles para descansar e jantar (mesmo prato e a 4ª melancia do dia). O filho dele mais velho nos trouxe um frango de presente e preparou o chá da tarde.
Quando era noite já, saímos para a dança. Charles emprestou uma roupa típica para o Eric! Antes de ir para a festa o Charles também veio com um super blusão para mim, ele disse que com o meu casaco eu ia sentir frio! Foi a primeira vez que sentimos um pouco de frio, estava mesmo fresquinho. Observação: desde o início ele estava preocupado com a calça jeans do Eric! Essa calça tem um rasgo no joelho esquerdo (e eu brigo com ele para não usar mais), mas como ficamos imundos depois de pegar a estrada... ele foi com ela. Quando chegamos o Charles notou e perguntou o que tinha acontecido, se tinha sido na viagem e perguntou se o Eric queria se trocar. Eu quase me enfiei dentro do monte de feijão! Eric respondeu que tudo bem e perguntou se havia problema ele ir na missa assim. Charles, logicamente, disse que não havia problema nenhum, mas estranhou! Acontece isso, nós evitamos de usar roupas “boas” aqui, mas eles são vaidosos com as “roupas sociais”, principalmente em dia de festa. Né, seu Eric!? A noite foi linda! Pegamos uma lua cheia linda que iluminava todo o caminho! Tudo! Nem era preciso lanterna onde não tem eletricidade! Ficamos maravilhados!! Fomos para a roda de dança, conversamos mais um pouco com o Timothée (amigo do Charles, também muito gente boa), dançamos um pouquinho e voltamos para a casa quase 1h da manhã! A lua ainda estava lá, iluminando tudo...
A esposa do Charles já tinha arrumado a nossa cama... dormimos super bem na roça! Pena que durou somente 4 horinhas porque levantamos cedo para pegar estrada novamente! Quando acordamos, ainda estavam dançando. No café da manhã a nossa 5ª melancia (e não pode pegar só um pedaço), o deguê e o chá. Nós ficamos contentes com esse dia, com a forma com que fomos acolhidos e mais uma vez mexidos com o que não sabemos bem explicar. Eu, particularmente, fiquei emocionada de ter estado ali, num vilarejo no interior do interior da África, onde a vida é dura, simples e ninguém reclama dela. Onde TODOS se cumprimentam e perguntam “como vai a família no Brasil?”. Onde falta tudo, mas todo mundo tem telefone celular.
O Charles, sentado à direita com a sua esposa, tem 7 filhos. Esses na foto são os mais novos, que ainda moram com ele. Uma filha e um filho já são casados e moram no mesmo vilarejo. O rapaz que não conhecemos mora no Mali e a outra filha mora em Nouna, uma cidade perto. A esposa dele não fala francês, mas nos despedindo Charles traduziu o que ela queria dizer: que ficou muito contente em nos receber na casa dela e que somos amigos. Ele levou a moto do Eric até a entrada da cour e disse “Que Deus projeta vocês na estrada e a família de vocês sempre!”
Deixamos Konkuykoro - com um casal de frangos (um em cada guidão da moto), um saco de ovos, uma garrafa de deguê e uma melancia (grande) - dando tchau para todos os que apareciam no caminho sorrindo ou desejando boa viagem e... com lágrimas rolando!
Palu é como todos chamam por aqui o paludismo, mais conhecido no Brasil como malária! Segundo a Wikipédia: a malária mata 3 milhões de pessoas por ano, uma taxa só comparável à da SIDA/AIDS, e afeta mais de 500 milhões de pessoas todos os anos. É a principal parasitose tropical e uma das mais frequentes causas de morte em crianças nesses países: (mata um milhão de crianças com menos de 5 anos a cada ano). Segundo a OMS, a malária mata uma criança africana a cada 30 segundos, e muitas crianças que sobrevivem a casos severos sofrem danos cerebrais graves e têm dificuldades de aprendizagem. Há, todos os anos, 300 a 500 milhões de casos da malária, dos quais mais de 90% na África.
Sabíamos que o índice de casos aqui em Burkina é um dos mais altos e por isso é altamente recomendável tomar medicamentos que diminuam os sintomas. Não existem medicamentos que evitam o palu, somente alguns que minimizam os sintomas que podem variar muito de pessoa para pessoa. No geral, esses sintomas são febre alta, cansaço intenso, vômitos e em alguns casos convulsões. No caso das crianças, a maioria delas precisam fazer transfusão de sangue.
Pelo que nos informamos, os medicamentos que são específicos para o palu têm efeitos colaterais muito fortes, que além dos mais comuns também dão manchas na pele (por causa do sol), levam à depressão e conhecemos casos de pessoas que tiveram alucinações. O remédio que tomamos é o malarone, menos forte mas ele é um pouco mais caro que os outros. Em todas essas alternativas, o tratamento é de 3 meses, mais tempo corre-se o risco de não resolver mais. Então, quem mora aqui mais tempo ou toma por 3 meses ou não toma.
A época do ano em que os casos aumentam muito é a época das chuvas (que terminou no início de outubro) e é principalmente nesse período que precisamos nos cuidar, tanto com os medicamentos quanto com os mosquiteiros para dormir (o mosquito ataca mais durante a noite), incensos, repelentes, sabonete anti-mosquito, citronela, gerânio e tudo o que ouvimos dizer que é bom!
Bem, tudo isso para comentar que uma das coisas que nos chamaram muita atenção foi que os casos de palu são mesmo muito frequentes, mais do que pensávamos. TODOS com quem temos contato tiveram crises, algumas pessoas mais de uma, duas vezes. Sem contar os que comentam dos vizinhos e familiares. Quando voltamos da França o Pierre teve uma crise, pela primeira vez, e a Anne estava saindo de uma. Parece que enquanto tomamos os remédios, os sintomas ficam "escondidos" e dependendo da pessoa não se sente nada. Mas como o Pierre, por exemplo, parou de tomar o remédio nesse período, os sintomas vieram à tona. Mas ele está bem agora, curado. Por outro lado, nós dois também paramos nessas duas semanas e nada veio à tona, pelo contrário, ficamos aliviados de não ter os "pequenos" efeitos colaterais que tivemos desde o início!
Aqui o povo não toma esses medicamentos, é caro pra gente, mais ainda pra eles. Costuma-se tomar quinina (também temos no Brasil) mas o problema é que eles falam que essa planta também tem seus efeitos colaterais, parece que ficam meio surdos durante o tratamento. Enfim, é uma praga esse palu!
Vemos por aí que tem campanhas e cartazes incentivando o povo a dormir dentro dos mosquiteiros... mas o que falta mesmo é uma "vontade macro" para erradicar o mosquito do palu (Anopheles)! A malária é uma das *doenças negligenciadas* - seja por insuficiências das políticas públicas de saúde, seja por desinteresse da indústria farmacêutica em pesquisar novos medicamentos para doenças que atingem as populações mais pobres, em áreas igualmente pobres - portanto, fora do mercado. Acrescentamos que o que vimos ambém tmuito por aqui é que as pessoas têm preguiça de usar o mosquiteiro, elas têm mas não usam na hora de dormir :/