Já fomos e já voltamos! As duas semanas na França correram bem, fizemos quase tudo, quase tudo mesmo, que precisávamos! Só não deu para descansar, mas o friozinho nos fez muito bem! Fomos muito bem acolhidos pela Nicole que nos recebeu em sua casa (onde está a nossa "mudança") e pelos amigos que conseguimos visitar, além do papo gostoso, comidinha gostosa e deliciosos queijos e vinhos! Obrigada queridos! Como sempre tem história para contar no meio, mas conseguimos renovar os nossos vistos! Nossa semana em Bordeaux também foi boa, principalmente para o Eric que se apresentou (com sucesso!) e trocou figurinhas com bastante gente e interessados no trabalho que está fazendo. Adoramos Bordeaux, pena que foi tão rápido e corrido, não deu para passear! Mas como esse blog é sobre outras áreas vamos parar por aqui!!
Essas duas semanas na França já nos deram "pistas" das coisas que não tivemos muito tempo de assimilar desde que chegamos aqui. Serviu para nos darmos conta, pelo menos um pouco, do antes e do depois, das "diferenças" entre esses dois mundos e constatar, mais uma vez, que falamos muito, podemos falar por horas, mas não chegamos a exprimir exatamente o que se passa. Isso gera um certo vazio, por que temos a sensação que falamos muito e nada ao mesmo tempo, mas mesmo assim uma satisfação enorme de que aquilo que vivemos, em qualquer circunstância, ninguém pode viver em nosso lugar!
Bem, cá estamos de novo! Chegamos no sábado a noite em Ouagadougou, mas ficamos até a quarta-feira porque o Eric tinha reuniões de trabalho. O legal dessa vez em Ouaga foi que na terça fomos numa conferência no CCF seguida da exibição de um documentário muito interessante: Let's make money - http://www.letsmakemoney.at! ASSISTAM! A conferência foi de um agrônomo que participa do documentário falando sobre as atividades agrícolas daqui, o que reflete diretamente na situação econômica do país... Burkina Faso é 80% agricultura! Mas o documentário mostra outras "realidades" também, vale muito a pena ver para deixarmos de ser ingênuos!
Chegamos em Dédougou e encontramos a casa num estado como se tivéssemos fora durante meses! Muita poeira (vermelha) e muitas, muitas aranhas! Tinha até um rato dentro de casa que fez a festa e deu trabalho para o Eric! Mas as coisas já estão no lugar e várias pessoas já passaram por aqui para nos dar as boas-vindas! Eric ganhou um presente do Moussa (o marcineiro que fez a nossa cama) um quadro com o mapa de Burkina Faso e do Brasil, embaixo duas mãos dadas (uma daqui e outra de tubabu) escrito "Amizade - Fraternidade - Determinação"; feito de areia colorida, bem característico daqui. O problema é que o quadro é de vidro e moldura de madeira, isto é, nada ideal para pôr na mala! Mas vai ter que ir, vamos dar um jeito!
Também ficamos contentes porque nossa campanha deu certo! Trouxemos uma mala grande e uma pequena de doações da França e algumas encomendas. O que já demos alegrou muito o povo :) Obrigada a todos que participaram! Hoje fomos nas irmãs (Missão da Madre Teresa) levar então as doações e o pacote que as irmãs de Paris deixaram com a gente para elas ... só alegria!
Isso aí! Começando a segunda etapa! Até dezembro temos muito o que fazer por aqui! Nos aguardem!!
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
sábado, 3 de outubro de 2009
De passagem para o outro planeta
Estamos em Ouagadougou desde quarta-feira para pegarmos, hoje, o avião para o planeta França. Ficaremos duas semanas lá para duas missões principalmente: renovar os nossos vistos e participar de um congresso em que o Eric vai apresentar um trabalho. O congresso será em Bordeaux e no primeiro dia (dia 13) vamos comemorar o aniversário do Eric também!!!
Bem, mas em Ouaga as coisas acontecem também, não podia ser diferente. Pra começar, a viagem! Olha, é nessas horas que reforçamos que tudo tem que ter seu lado positivo! Saímos de casa às 8h (com bagagens pois já deixaremos algumas coisas na França) para pegar o ônibus das 9h. Mas o ônibus saiu depois das 10h. Não tem chovido (aliás faz uma semana que não chove e o calor é intenso) mas mesmo assim a viagem foi demorada pois além das estradas serem ruins, dessa vez o motorista era lento. Resumindo, fizemos os tais 230 Km de Dédougou a Ouaga em 7h! S E T E H O R A S! Num cAAAlor e com galinhas nos pés! Ficamos o resto do dia mal humorados! Temos mesmo que vir antes quando ainda se tem pela frente mais algumas horinhas de avião, não dá para fazer seguido. Aliás, não é bom contar com a previsão de quanto tempo leva de um lugar para o outro pois tudo pode acontecer. Aprendemos, definitivamente, que aqui o dia de pegar estrada é o dia de pegar estrada e mais nada, dependendo do que for fazer melhor viajar 2 dias antes!
Está tendo aqui um salão de turismo e, esse ano, o tema é roupa tradicional. Fomos visitar porque se tudo correr bem e o trabalho render, quando voltarmos da França vamos nos aventurar por ai, já que até agora com as chuvas não foi possível. A feira não é tão grande e em um dos salões tinham uns stands de parques nacionais e passeios tipo safari. Tinha também dois macaquinhos, pelicanos, tartarugas, hiena, alguns pássaros diferentes, etc. Estávamos então fuçando pra encontrar umas dicas legais. O nosso choque foi o seguinte: nos deparamos com um panfleto da Reserva da Fauna da Comoe - Lebara que oferece a caça de animais selvagens com a seguinte tabela:
Taxas de abate (espécie - preço na moeda local e preço em euro):
Búfalo = 430 Euros
Roan (?) = 460 Euros
Oribi = 46 Euros
Babuíno = 31 Euros
Macaco = 23 Euros ... entre outros...
Observação: Em caso de abate de fêmeas ou filhotes, a taxa é o dobro.
Sem contar que num stand passavam vídeos mostrando a "aventura" e em todos eles fotos de "tubabu" sorrindo, abraçado com um nativo, com a arma na mão e com o animal morto... claro. Que tristeza!
Achávamos que fosse proibido... ficamos chocados com a naturalidade com que apresentam. Perguntamos para um expositor o nome de um dos animais, que era o mais caro da lista e aparecia em muitas fotos. Agora já não lembramos o nome mas ele disse:
Ele: "Ah, esse é lindo, é grande, selvagem!"
Ju: "Então, por isso mesmo que não pode caçar e matar!"
Ele: "Hum... mas temos que valorizar também!"
???? Triste demais mesmo.
Passamos também no mercado para comprar lembrancinhas... temos que nos preparar antes. Tem que ter M U I T A paciência, teve uma hora que contei, tinham 11 vendedores cercando a gente! Onze falando no teu ouvido. Não tem como andar no mercado para ver as coisas tranquilamente. Se você demonstra estar interessado num produto qualquer, vem 5 atrás te mostrando outras opções. Além daquela história toda para negociar o preço e isso toma tempo. Enfim, uma vez vale à pena rsrsrs
Nesses dias também tem tido concertos no CCF, onde a Anne trabalha. Assistimos o show do Mikea, uma banda de Madagáscar muito boa que ganhou ano passado um importante prêmio descoberta e estão fazendo uma turnê na Africa (aqui tem audio e vídeo deles). Adoramos a musica deles, bem diferente! Nesse dia conhecemos o Daniel, um carioca que mora aqui e namora uma amiga da Anne. Nós 3 sentamos juntos ao lado de outra brasileira, a Marília, que ouviu a gente falando português e... nessa hora, passou a Iara, a petropolitana que tínhamos conhecido da outra vez com mais uma brasileira. Éramos 6! 6 brasileiros em Ouaga!
Hoje então passaremos a noite sem mosquiteiro, no ar condicionado do avião (que aliás nunca desejamos tanto) mas sem o barulhinho dos grilos também, para passarmos duas semaninhas corridinhas na França, encerrando nossa turbulenta e emocionante primeira fase em terras africanas.
Bem, mas em Ouaga as coisas acontecem também, não podia ser diferente. Pra começar, a viagem! Olha, é nessas horas que reforçamos que tudo tem que ter seu lado positivo! Saímos de casa às 8h (com bagagens pois já deixaremos algumas coisas na França) para pegar o ônibus das 9h. Mas o ônibus saiu depois das 10h. Não tem chovido (aliás faz uma semana que não chove e o calor é intenso) mas mesmo assim a viagem foi demorada pois além das estradas serem ruins, dessa vez o motorista era lento. Resumindo, fizemos os tais 230 Km de Dédougou a Ouaga em 7h! S E T E H O R A S! Num cAAAlor e com galinhas nos pés! Ficamos o resto do dia mal humorados! Temos mesmo que vir antes quando ainda se tem pela frente mais algumas horinhas de avião, não dá para fazer seguido. Aliás, não é bom contar com a previsão de quanto tempo leva de um lugar para o outro pois tudo pode acontecer. Aprendemos, definitivamente, que aqui o dia de pegar estrada é o dia de pegar estrada e mais nada, dependendo do que for fazer melhor viajar 2 dias antes!
Está tendo aqui um salão de turismo e, esse ano, o tema é roupa tradicional. Fomos visitar porque se tudo correr bem e o trabalho render, quando voltarmos da França vamos nos aventurar por ai, já que até agora com as chuvas não foi possível. A feira não é tão grande e em um dos salões tinham uns stands de parques nacionais e passeios tipo safari. Tinha também dois macaquinhos, pelicanos, tartarugas, hiena, alguns pássaros diferentes, etc. Estávamos então fuçando pra encontrar umas dicas legais. O nosso choque foi o seguinte: nos deparamos com um panfleto da Reserva da Fauna da Comoe - Lebara que oferece a caça de animais selvagens com a seguinte tabela:
Taxas de abate (espécie - preço na moeda local e preço em euro):
Búfalo = 430 Euros
Roan (?) = 460 Euros
Oribi = 46 Euros
Babuíno = 31 Euros
Macaco = 23 Euros ... entre outros...
Observação: Em caso de abate de fêmeas ou filhotes, a taxa é o dobro.
Sem contar que num stand passavam vídeos mostrando a "aventura" e em todos eles fotos de "tubabu" sorrindo, abraçado com um nativo, com a arma na mão e com o animal morto... claro. Que tristeza!
Achávamos que fosse proibido... ficamos chocados com a naturalidade com que apresentam. Perguntamos para um expositor o nome de um dos animais, que era o mais caro da lista e aparecia em muitas fotos. Agora já não lembramos o nome mas ele disse:
Ele: "Ah, esse é lindo, é grande, selvagem!"
Ju: "Então, por isso mesmo que não pode caçar e matar!"
Ele: "Hum... mas temos que valorizar também!"
???? Triste demais mesmo.
Passamos também no mercado para comprar lembrancinhas... temos que nos preparar antes. Tem que ter M U I T A paciência, teve uma hora que contei, tinham 11 vendedores cercando a gente! Onze falando no teu ouvido. Não tem como andar no mercado para ver as coisas tranquilamente. Se você demonstra estar interessado num produto qualquer, vem 5 atrás te mostrando outras opções. Além daquela história toda para negociar o preço e isso toma tempo. Enfim, uma vez vale à pena rsrsrs
Nesses dias também tem tido concertos no CCF, onde a Anne trabalha. Assistimos o show do Mikea, uma banda de Madagáscar muito boa que ganhou ano passado um importante prêmio descoberta e estão fazendo uma turnê na Africa (aqui tem audio e vídeo deles). Adoramos a musica deles, bem diferente! Nesse dia conhecemos o Daniel, um carioca que mora aqui e namora uma amiga da Anne. Nós 3 sentamos juntos ao lado de outra brasileira, a Marília, que ouviu a gente falando português e... nessa hora, passou a Iara, a petropolitana que tínhamos conhecido da outra vez com mais uma brasileira. Éramos 6! 6 brasileiros em Ouaga!
Hoje então passaremos a noite sem mosquiteiro, no ar condicionado do avião (que aliás nunca desejamos tanto) mas sem o barulhinho dos grilos também, para passarmos duas semaninhas corridinhas na França, encerrando nossa turbulenta e emocionante primeira fase em terras africanas.
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
Quando a chuva vem não é para brincar!
Na quinta passada fui à Konkouykoro, próximo à fronteira com o Mali, para visitar um agricultor. Por volta das 16h30 resolvi "pedir a estrada", como eles dizem por aqui quando chega a hora de ir embora. São duas horas de viagem entre Konkouykoro e Dédougou, em pista de terra, e eu não queria chegar depois do anoitecer. O agricultor me diz que a chuva estava pra chegar e que talvez fosse melhor eu passar a noite por lá. No início quis me apressar mas logo vi que a chuva era pra valer e estava mesmo chegando! Mesmo não tendo previsto ficar em Konkouykoro, estava parecendo que o mais sensato seria mesmo passar a noite por lá. Disse que não tinha trazido nada e que precisava avisar minha esposa da mudança de planos. Ele com muita naturalidade me mostrou que tinha um mosquiteiro para eu poder dormir tranquilo e me chamou para irmos num canto do vilarejo onde há um pouco de sinal de celular. Disse "logo ali na frente daquela porta" e eis que me aproximando uma mísera barra de sinal apareceu na tela do celular. Liguei pra Ju para avisar que não dormiria em casa, mal consegui falar pois a ligação estava muito ruim e o vento já soprava forte mesmo, mostrando que a chuva estava chegando. Aliás, ela chegou no meio do telefonema! comecei a me molhar e quando desliguei vi que o agricultor, muito simpático, estava atrás de mim segurando uma bacia para que eu me molhasse menos! Voltamos pra casa dele correndo e a chuva caiu pra valer! uma hora e meia de chuva forte mesmo! Dai ficou claro que foi melhor ficar mesmo! com aquela chuva, na estrada de terra, não ia prestar!
Foi assim que passei minha primeira noite realmente na zona rural do Burkina Faso, sem eletricidade, nem água corrente, na casa simples e acolhedora desse agricultor. Conversamos um bocado mais quando a noite foi caindo. Fui dormir por volta das 20h30 como o resto da família e no dia seguinte acordei bem cedo para pegar a estrada, às 6h. De café da manhã uma espécie de sopa de cereais fria, feita com suco de tamarindo! muito bom!! Descobrimos que o pneu da moto estava furado (tinha esvaziado durante a noite). Agora imaginem se eu tivesse insistido em pegar a estrada com a chuva e o pneu furado!?!?! ainda bem que fiquei! Ele mesmo consertou o pneu e lá pelas 6h30 eu já estava pegando a estrada. Viagem tranquila de volta pra Dédougou.
Para vocês terem uma ideia do que falamos sobre a chegada abrupta das chuvas por aqui, vejam aqui fotos de um outro dia em que a chuva estava chegando lá em Dédougou, até parece cenas do filme Independance Day! Ah! Essas fotos são do nosso amigo Bruno, do grupo de portugueses que passaram as férias por aqui.
Foi assim que passei minha primeira noite realmente na zona rural do Burkina Faso, sem eletricidade, nem água corrente, na casa simples e acolhedora desse agricultor. Conversamos um bocado mais quando a noite foi caindo. Fui dormir por volta das 20h30 como o resto da família e no dia seguinte acordei bem cedo para pegar a estrada, às 6h. De café da manhã uma espécie de sopa de cereais fria, feita com suco de tamarindo! muito bom!! Descobrimos que o pneu da moto estava furado (tinha esvaziado durante a noite). Agora imaginem se eu tivesse insistido em pegar a estrada com a chuva e o pneu furado!?!?! ainda bem que fiquei! Ele mesmo consertou o pneu e lá pelas 6h30 eu já estava pegando a estrada. Viagem tranquila de volta pra Dédougou.
Para vocês terem uma ideia do que falamos sobre a chegada abrupta das chuvas por aqui, vejam aqui fotos de um outro dia em que a chuva estava chegando lá em Dédougou, até parece cenas do filme Independance Day! Ah! Essas fotos são do nosso amigo Bruno, do grupo de portugueses que passaram as férias por aqui.
terça-feira, 29 de setembro de 2009
Bobo-dioulasso
Nosso último final de semana da primeira fase aqui na África foi ótimo. Precisávamos desse tempo! Fomos para Bobo-dioulasso que fica à 180 Km de Dédougou. Bobo é considerada a segunda cidade do Burkina, tem como símbolo o djembé, instrumento musical que representa a cultura dos povos da região. Saímos no sábado de manhã e fomos de moto porque a estrada é toda asfaltada até lá. Fomos nós dois na nossa moto e o Pierre levou a Janete de carona na moto dele. A Janete é a sobrinha da Francine que mora em Bobo mas passou uns dias de férias aqui. A Anne veio de Ouaga. No início foi legal, mas depois de um tempo doeu bastante o bumbum! Fizemos duas pausas na estrada, estava muito quente e a paisagem estava linda, africana mesmo! Assim que chegamos na cidade, perto do meio-dia, nossa moto pifou! A sorte foi que paramos bem em frente a um senhor mecânico que foi super legal. Ele é militar aposentado e estava na ativa na época do Sankara (ex-presidente assassinado que iniciou a revolução do Burkina Faso).
Bem, situação resolvida e fomos para o albergue deixar as nossas coisas e almoçar. O albergue se chama Zion, é pequeno, bem simples e gostosinho, só tinha a gente e mais quatro pessoas hospedadas. A dona se chama Camile (uma francesa totalmente fora do padrão) casada com um burquinabês, eles têm duas filhinhas. Pela primeira vez desde que chegamos aqui vimos uma criança brincar com brinquedo de verdade. Elas estavam brincando de boneca e a menorzinha amarrou a boneca dela nas costas com um tecido como as mulheres fazem aqui com os bebês... uma graça! O clima é bem legal no albergue, tem um restaurante e funciona um bar, de vez em quando tem shows, vendem artesanato... e como cita o guia Routard "o clima é rasta e às vezes bastante esfumaçado". A Camile cozinhou pra gente e fez pratos vegetarianos especialmente nós :)
Ainda no sábado fomos no mercado municipal. O mercado de Bobo é bem legal, maior e bem mais arrumadinho do que o de Dédougou. Ele foi totalmente reconstruído e restaurado e desde 2001, quando abriu novamente suas portas, atrai muitos comerciantes de Guinée, Mali, Ghana, Costa do Marfim e turistas, tudo isso porque Bobo é bem situada geograficamente falando e se desenvolveu muito nos últimos anos. Mas a cidade ainda preserva antigos bairros e costumes dos vilarejos do interior, o animismo ainda é bastante praticado e há também uma forte influência do islamismo... um conjunto de variedades, misturas e etnias que mantém o seu charme.
Infelizmente não tivemos muito tempo no mercado pois ele fecha cedo, ficamos umas 2 horas que passaram muito rápido. No mercado tem de tudo (roupas "modernas", produtos de beleza, cestos, tecidos tradicionais, peças de cerâmica e artesanato bem original)! Andamos pouco por lá e ficamos um bom tempo numa mesma tenda negociando preço. Um barato! Quando chegamos fomos cercado por um senhor (Jacquie) que nos levou até a tenda dele, só artesanato (colares, estatuetas, mascaras, tecidos)... ele é um bom comerciante mas nós já pegamos toda a "manha" deles também e pagamos bem menos da metade do preço inicial!
Saindo do mercado fomos para casa descansar um pouco. Jantamos e fomos para o maquis Bois d'Ebène (Bosque do Ébano) onde teve o festival de música que a Anne veio para trabalhar representando o Centro Cultural Francês de Ouaga. A Janete e um primo dela veio encontrar a gente também. Foram 11 grupos de música tradicional, moderna e "fusão". Rimos muito! Os grupos são bons mas o som estava horrível e a "performance" dos apresentadores e do que parecia ser o "chefe de palco" divertiu muito a gente! Teve uma banda tradicional completa com uma cantora que é até conhecida, mas tinha no grupo deles um dançarino que não tinha nada a ver com o que estava acontecendo, ele fazia uns passos de dança tradicional com balé moderno e yoga (ele fez até uma invertida no palco) com uma roupitcha que estava muito engraçado, apelidamos ele de Ney Mato Grosso Burquinabês (guardada as devidas proporções, que o Ney Matogrosso não se sinta ofendido - não tem comparação)!
No domingo acordamos calmamente, bem no ritmo local, sem pressa para nada, demoramos para tomar café, para comer e para sair. Fomos visitar a Guinguette que fica dentro da Floresta Sagrada do Kou (onde nasce o rio do mesmo nome). é simplesmente um local FANTÁSTICO! O local é conhecido por Guinguette porque esse é o nome dado a um espaço que os colonizadores construíram no meio da floresta para fazer festa nos domingos. Até um tempo atrás era permitido tomar banho nos rios e nas piscinas naturais. Tem locais para rituais animistas e ainda é bastante frequentado para sacrifícios e dependendo da época aparecem os elefantes e os hipopotamos. Adoramos visitar essa floresta, nos sentimos no cenário do Indiana Jones! Como nada é perfeito os mosquitos irritaram um pouco mas nada perto da satisfação de estar ali!
Logo depois desse passeio paramos na estrada para comer alguma coisa. Hum! Que lugarzinho gostoso! O engraçado é que as galinhas ficam soltas por ali e de vez em quando passava o cozinheiro para matar uma delas para cozinhar!
Aproveitando ainda para conhecer mais alguma coisa em Bobo, passamos na antiga mesquita (Mosquée de Dioulasso-Bâ) datada de 1894. Já estava escurecendo e não conseguimos tirar fotos, vai ficar para a próxima. A mesquita é realmente diferente, sua arquitetura é sudanesa (do Sudão) e ela é toda feita de barro. As torres (minaret = de onde os fiéis são chamados para rezar) são na forma de cones e toda ela foi erguida com paus de madeira. Conta a história que no fim do século XIX o rei de Sya (antigo nome de Bobo) pediu ajuda ao chefe religioso dos muçulmanos para se defender do ataque de Tiéba le Grand (rei de Kénédougou). O religioso aceitou em troca da ajuda do rei para construir essa grande mesquita. Mas ela teve que ser construída onde também são feitos rituais animistas, e parece que os dois grupos vivem em paz, respeitando os horários e festas de cada religião.
Ainda fomos mais uma vez no Bois d'Ebène para o encerramento do festival. Dessa vez para assistir os vencedores. Foi mais divertido ainda, dessa vez o Pierre foi convocado para entregar os prêmios também e o convite veio da forma mais engraçada "Anne, qual o nome do teu namorado? Não tem mais ninguém aqui pra entregar os prêmios!" E os apresentadores começaram dizendo que as personalidades presentes é que entregariam os prêmios e certificados! Tínhamos jantado lasanha no albergue e ficamos com vontade de comer um doce, como quem não quer nada perguntamos no bar (que também é restaurante) se tinha algo doce para comer. Primeiro a garçonete responde "eu não sei, eu não sou a cozinheira" mas ela chamou o cozinheiro, um senhor já, que nos propôs banana flambada e crepe!!! :) Estava bom! Ele veio fazer as bananas na nossa frente e tudo!
Ainda não acaba por aqui nossas aventuras em Bobo. Na segunda de manhã saímos cedo porque combinamos de voltar de ônibus. Na gare, aquela cena, todo mundo chegando com tudo pra colocar no ônibus: sacos, cestos, animais, motos, etc. Ok, chegamos e fomos providenciar o "embarque das motos", eles embalam com papelão e isso demora um pouquinho. Mexe daqui e dali, ainda teve uma cena de um cara empurrando uns pacotes de papelão para caber não sei o que e eis que a caixa arrebenta e começa a vazar o conteúdo: peixe fresco! Dá a hora do ônibus partir e nada. Nessa eles já tinham tirado e recolocado a roda da nossa moto para caber no bagageiro (dessa vez o ônibus tinha bagageiro). Ok, meia hora depois (já estava bem quente) estávamos dentro do bus sentados esperando ele sair. De repente um movimento, gente descendo e falando "é para descer, temos que trocar de ônibus". Nos olhamos os três "trocar???" - observação: tudo aquilo que vem no ônibus já estava "arrumado" - desce tudo, sobe tudo... saímos com uma hora e meia de atraso de Bobo! Enfim!? Ainda em Bobo o ônibus faz uma parada e entra um senhor com um pneu de caminhão DENTRO do ônibus, isso mesmo, pneu de caminhão, sujo, e para ajudar um tonel de plástico de 130l por cima!
Definitivamente, ganhamos pouco mas nos divertimos muito!!!
Bem, situação resolvida e fomos para o albergue deixar as nossas coisas e almoçar. O albergue se chama Zion, é pequeno, bem simples e gostosinho, só tinha a gente e mais quatro pessoas hospedadas. A dona se chama Camile (uma francesa totalmente fora do padrão) casada com um burquinabês, eles têm duas filhinhas. Pela primeira vez desde que chegamos aqui vimos uma criança brincar com brinquedo de verdade. Elas estavam brincando de boneca e a menorzinha amarrou a boneca dela nas costas com um tecido como as mulheres fazem aqui com os bebês... uma graça! O clima é bem legal no albergue, tem um restaurante e funciona um bar, de vez em quando tem shows, vendem artesanato... e como cita o guia Routard "o clima é rasta e às vezes bastante esfumaçado". A Camile cozinhou pra gente e fez pratos vegetarianos especialmente nós :)
Ainda no sábado fomos no mercado municipal. O mercado de Bobo é bem legal, maior e bem mais arrumadinho do que o de Dédougou. Ele foi totalmente reconstruído e restaurado e desde 2001, quando abriu novamente suas portas, atrai muitos comerciantes de Guinée, Mali, Ghana, Costa do Marfim e turistas, tudo isso porque Bobo é bem situada geograficamente falando e se desenvolveu muito nos últimos anos. Mas a cidade ainda preserva antigos bairros e costumes dos vilarejos do interior, o animismo ainda é bastante praticado e há também uma forte influência do islamismo... um conjunto de variedades, misturas e etnias que mantém o seu charme.
Infelizmente não tivemos muito tempo no mercado pois ele fecha cedo, ficamos umas 2 horas que passaram muito rápido. No mercado tem de tudo (roupas "modernas", produtos de beleza, cestos, tecidos tradicionais, peças de cerâmica e artesanato bem original)! Andamos pouco por lá e ficamos um bom tempo numa mesma tenda negociando preço. Um barato! Quando chegamos fomos cercado por um senhor (Jacquie) que nos levou até a tenda dele, só artesanato (colares, estatuetas, mascaras, tecidos)... ele é um bom comerciante mas nós já pegamos toda a "manha" deles também e pagamos bem menos da metade do preço inicial!
Saindo do mercado fomos para casa descansar um pouco. Jantamos e fomos para o maquis Bois d'Ebène (Bosque do Ébano) onde teve o festival de música que a Anne veio para trabalhar representando o Centro Cultural Francês de Ouaga. A Janete e um primo dela veio encontrar a gente também. Foram 11 grupos de música tradicional, moderna e "fusão". Rimos muito! Os grupos são bons mas o som estava horrível e a "performance" dos apresentadores e do que parecia ser o "chefe de palco" divertiu muito a gente! Teve uma banda tradicional completa com uma cantora que é até conhecida, mas tinha no grupo deles um dançarino que não tinha nada a ver com o que estava acontecendo, ele fazia uns passos de dança tradicional com balé moderno e yoga (ele fez até uma invertida no palco) com uma roupitcha que estava muito engraçado, apelidamos ele de Ney Mato Grosso Burquinabês (guardada as devidas proporções, que o Ney Matogrosso não se sinta ofendido - não tem comparação)!
No domingo acordamos calmamente, bem no ritmo local, sem pressa para nada, demoramos para tomar café, para comer e para sair. Fomos visitar a Guinguette que fica dentro da Floresta Sagrada do Kou (onde nasce o rio do mesmo nome). é simplesmente um local FANTÁSTICO! O local é conhecido por Guinguette porque esse é o nome dado a um espaço que os colonizadores construíram no meio da floresta para fazer festa nos domingos. Até um tempo atrás era permitido tomar banho nos rios e nas piscinas naturais. Tem locais para rituais animistas e ainda é bastante frequentado para sacrifícios e dependendo da época aparecem os elefantes e os hipopotamos. Adoramos visitar essa floresta, nos sentimos no cenário do Indiana Jones! Como nada é perfeito os mosquitos irritaram um pouco mas nada perto da satisfação de estar ali!
Logo depois desse passeio paramos na estrada para comer alguma coisa. Hum! Que lugarzinho gostoso! O engraçado é que as galinhas ficam soltas por ali e de vez em quando passava o cozinheiro para matar uma delas para cozinhar!
Aproveitando ainda para conhecer mais alguma coisa em Bobo, passamos na antiga mesquita (Mosquée de Dioulasso-Bâ) datada de 1894. Já estava escurecendo e não conseguimos tirar fotos, vai ficar para a próxima. A mesquita é realmente diferente, sua arquitetura é sudanesa (do Sudão) e ela é toda feita de barro. As torres (minaret = de onde os fiéis são chamados para rezar) são na forma de cones e toda ela foi erguida com paus de madeira. Conta a história que no fim do século XIX o rei de Sya (antigo nome de Bobo) pediu ajuda ao chefe religioso dos muçulmanos para se defender do ataque de Tiéba le Grand (rei de Kénédougou). O religioso aceitou em troca da ajuda do rei para construir essa grande mesquita. Mas ela teve que ser construída onde também são feitos rituais animistas, e parece que os dois grupos vivem em paz, respeitando os horários e festas de cada religião.
Ainda fomos mais uma vez no Bois d'Ebène para o encerramento do festival. Dessa vez para assistir os vencedores. Foi mais divertido ainda, dessa vez o Pierre foi convocado para entregar os prêmios também e o convite veio da forma mais engraçada "Anne, qual o nome do teu namorado? Não tem mais ninguém aqui pra entregar os prêmios!" E os apresentadores começaram dizendo que as personalidades presentes é que entregariam os prêmios e certificados! Tínhamos jantado lasanha no albergue e ficamos com vontade de comer um doce, como quem não quer nada perguntamos no bar (que também é restaurante) se tinha algo doce para comer. Primeiro a garçonete responde "eu não sei, eu não sou a cozinheira" mas ela chamou o cozinheiro, um senhor já, que nos propôs banana flambada e crepe!!! :) Estava bom! Ele veio fazer as bananas na nossa frente e tudo!
Ainda não acaba por aqui nossas aventuras em Bobo. Na segunda de manhã saímos cedo porque combinamos de voltar de ônibus. Na gare, aquela cena, todo mundo chegando com tudo pra colocar no ônibus: sacos, cestos, animais, motos, etc. Ok, chegamos e fomos providenciar o "embarque das motos", eles embalam com papelão e isso demora um pouquinho. Mexe daqui e dali, ainda teve uma cena de um cara empurrando uns pacotes de papelão para caber não sei o que e eis que a caixa arrebenta e começa a vazar o conteúdo: peixe fresco! Dá a hora do ônibus partir e nada. Nessa eles já tinham tirado e recolocado a roda da nossa moto para caber no bagageiro (dessa vez o ônibus tinha bagageiro). Ok, meia hora depois (já estava bem quente) estávamos dentro do bus sentados esperando ele sair. De repente um movimento, gente descendo e falando "é para descer, temos que trocar de ônibus". Nos olhamos os três "trocar???" - observação: tudo aquilo que vem no ônibus já estava "arrumado" - desce tudo, sobe tudo... saímos com uma hora e meia de atraso de Bobo! Enfim!? Ainda em Bobo o ônibus faz uma parada e entra um senhor com um pneu de caminhão DENTRO do ônibus, isso mesmo, pneu de caminhão, sujo, e para ajudar um tonel de plástico de 130l por cima!
Definitivamente, ganhamos pouco mas nos divertimos muito!!!
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
Final do Ramadam
Esquecemos de contar um acontecimento do final de semana passado (na verdade a Internet estava um caos). No domingo (dia 20 de setembro) foi festejado o final do Ramadam. Na noite do sábado, em que se completam os 30 dias de jejum, os muçulmanos devem ver a lua que marca o fim desse período, digo devem porque quando está nublado e ela não aparece uns telefonam para outros que a viram e a televisão costuma confirmar também, e no dia seguinte é festa, um dia festivo, feriado para todos! Nesse ano esse dia caiu num domingo e então, como é de praxe por aqui, o feriado passa automaticamente para o dia seguinte; se não, não tem graça né!? Domingo não é o mesmo que feriado, ora bolas!
Tradicionalmente as famílias passam o dia reunidas, recebendo amigos e fazendo visitas e por isso se faz muita comida. Fomos convidados para passar na casa do Sidibé (um amigo da UGCPA). A esposa dele preparou uma super salada e frango assado pra gente. Mas, o estranho é que sentamos para comer nos quatro (nós dois + Pierre e Anne) com o Sidibé. Sua esposa, filhas e o restante da família não comeram com a gente. Saindo dali passamos na casa do Abdoulaye, tradutor do Pierre. A esposa dele também tinha cozinhado pra gente, arroz com molho e depois um macarrão com frango (já não aguentávamos mais). E ainda passamos na casa de um amiguinho do Eric, um rapazinho que vem de vez em quando em casa e nos convidou para passar na casa dele também. Fomos, mas ele tinha saído para fazer uma visita, até achamos melhor porque já não dava para partir para o quarto almoço do dia!
é um dia de festa e de perdão para os muçulmanos, eles se visitam para compartilhar e pedir perdão para os amigos e familiares por alguma coisa que tenha acontecido no ano que passou. Eles se arrumam para esse dia, às vezes com roupas novas, e comemoram bastante.
Aproveitando o feriado na segunda, nosso amigo Armand nos convidou para almoçar na casa dele. Ele não é muçulmano, mas não queria que fôssemos para a França sem conhecer sua família. Fomos nós e o Pierre, e o Armand convidou um amigo dele pra conversar com a gente também. Chegando lá as irmãs dele tinham preparado um salada, um tô (o melhor que comemos até agora) com um molho de folhas (?) e depois frango de panela. Como podem ver, estamos sempre na situação delicada de comer carne ou não. Para fechar, ainda nos ofereceram uma travessa de pipoca com raspas de côco por cima. Tinha suco de tamarindo (uma delícia) e de gengibre e tudo estava no capricho! Armand e a mãe dele (uma senhorinha) comeram conosco e depois ele chamou seus irmãos para se apresentarem para gente. Foi tudo carinhosamente pensado por ele...
Tradicionalmente as famílias passam o dia reunidas, recebendo amigos e fazendo visitas e por isso se faz muita comida. Fomos convidados para passar na casa do Sidibé (um amigo da UGCPA). A esposa dele preparou uma super salada e frango assado pra gente. Mas, o estranho é que sentamos para comer nos quatro (nós dois + Pierre e Anne) com o Sidibé. Sua esposa, filhas e o restante da família não comeram com a gente. Saindo dali passamos na casa do Abdoulaye, tradutor do Pierre. A esposa dele também tinha cozinhado pra gente, arroz com molho e depois um macarrão com frango (já não aguentávamos mais). E ainda passamos na casa de um amiguinho do Eric, um rapazinho que vem de vez em quando em casa e nos convidou para passar na casa dele também. Fomos, mas ele tinha saído para fazer uma visita, até achamos melhor porque já não dava para partir para o quarto almoço do dia!
é um dia de festa e de perdão para os muçulmanos, eles se visitam para compartilhar e pedir perdão para os amigos e familiares por alguma coisa que tenha acontecido no ano que passou. Eles se arrumam para esse dia, às vezes com roupas novas, e comemoram bastante.
Aproveitando o feriado na segunda, nosso amigo Armand nos convidou para almoçar na casa dele. Ele não é muçulmano, mas não queria que fôssemos para a França sem conhecer sua família. Fomos nós e o Pierre, e o Armand convidou um amigo dele pra conversar com a gente também. Chegando lá as irmãs dele tinham preparado um salada, um tô (o melhor que comemos até agora) com um molho de folhas (?) e depois frango de panela. Como podem ver, estamos sempre na situação delicada de comer carne ou não. Para fechar, ainda nos ofereceram uma travessa de pipoca com raspas de côco por cima. Tinha suco de tamarindo (uma delícia) e de gengibre e tudo estava no capricho! Armand e a mãe dele (uma senhorinha) comeram conosco e depois ele chamou seus irmãos para se apresentarem para gente. Foi tudo carinhosamente pensado por ele...
sábado, 19 de setembro de 2009
Aniversário do Pierre
O aniversário do Pierre é dia 11 de setembro, mas ele teve que viajar e então a comemoração foi hoje. O combinado foi de comemorar o aniversário dele, do Youl (dia 6) e de um aninho da Enice (dia 13) aqui em casa, principalmente porque o Pierre convidou o pessoal do trabalho também. A principio, a ideia era fazer o cachorro-quente (brasileiro), comprar frangos na brasa, montar uma salada (mais ou menos o que é feito por aqui) e fazer mousse de chocolate e sorvete de menta (feito por nós). Mas como a festa era para a família da Francine também (mãe da Enice) o combinado era que fizéssemos algo juntos, melhor, além disso ela ia pensar em alguma coisa para servir também. Ok, combinamos então de deixar tudo pronto para quando o pessoal chegasse a gente estivesse "liberado". Eric e Pierre saíram às compras, com a Francine e a Janete (sobrinha dela). Entre várias idas e vindas, falta isso, vamos buscar aquilo... o plano muda, melhor, ela decide o que preparar. A Francine quis fazer o frango e então foram no mercado comprar os dois frangos (vivos), levaram na casa dela para matar e trouxeram para cá para todo o ritual até fritá-lo. E, além disso, o frango foi servido junto com um outro prato, o "nhongô", vejam que rápido e prático: a massa é feita com farinha de milho, amendoim moído e a folha do feijão QUE eles foram buscar onde a Francine tem sua pequena plantação (4 km de casa). Fazemos bolotas e cozinhamos a massa à vapor, é uma espécie de um quibe. Pronto! Com isso precisamos de bacias, um pilão, a panela para fazer a massa à vapor, carvão (que pegamos da vizinha), lenha que fomos buscar, etc... em paralelo a Sylvie e a Janete cortando os outros ingredientes para o molho. E mais: no mercado a Francine decidiu fazer o tal do "chenille" que em português é literalmente lagarta, isso mesmo, lagarta daquela que vira borboleta. Eles comem e falam que é bom e nutritivo. Eu não quis experimentar, sinceramente ver os bichinhos na panela não me apeteceu em nada. Eric comeu um, disse que tem gosto de carne. Bem, só que aqui em casa a nossa cozinha não é equipada para preparar essas coisas, melhor, exatamente o contrário, o ideal é não ter a cozinha e fazer "à lenha" como eles fazem aqui, espalhar tudo no chão, etc. Resultado, o dia inteiro girou em torno da festa, a cozinha e a varanda ficaram bem sujinhas!!! E lá pelas 19h, o pessoal chegando e a Francine ainda estava cuidando do frango, no meio da festa, mais ou menos, ela ainda foi em casa trocar de roupa, se produzir.... quando ela sentou, estava morta! E o pessoal, claro, come numa boa, como se tivesse sido feito à meia hora atrás. Sabe assim? ... é assim mesmo. Demos lápis de cor e papel para as crianças - Mardoché (filho do meio da Francine), a Ilda (a mais velha do Thierry) e o Mica (filho do Youl) - elas se divertiram! Terminando, o povo não curte chocolate, a mousse estava maravilhosa mas o pessoal nem ligou, muitos não comeram, eles acham muito doce, mas gostaram do cachorro-quente!
Ficamos bem cansados, deve ter feito uns 40° durante o dia. De manhã eu fui doar sangue e umas horas depois eu tive queda de pressão e umas coisinhas que bastou eu parar um pouquinho pra dormir para me sentir melhor, mas eu perdi algumas etapas de preparação dos pratos do dia! Falando em doar sangue, o enfermeiro me disse que "aqui" apenas 15% da população é soro negativo e que então o meu tipo de sangue (O -) é mais raro ainda. Fiquei mais contente com isso! O Eric já tinha doado há 3 semanas atrás e entregaram o resultado dele hoje; agradeceram muito etc. Parece que é muito difícil "convencer" as pessoas a doar sangue, dizem que só quando tem alguém da família precisando é que fazem. O detalhe do sistema aqui é que na ficha de entrevista para saber se podemos doar sangue ou não, temos que declarar se vivemos em monogamia ou poligamia. Eles também não fazem aquele exame prévio na hora pra depois tirar a quantidade normal de doação, tiramos o sangue e uma semana depois pegamos o resultado...
Beijos nossos :)
Ficamos bem cansados, deve ter feito uns 40° durante o dia. De manhã eu fui doar sangue e umas horas depois eu tive queda de pressão e umas coisinhas que bastou eu parar um pouquinho pra dormir para me sentir melhor, mas eu perdi algumas etapas de preparação dos pratos do dia! Falando em doar sangue, o enfermeiro me disse que "aqui" apenas 15% da população é soro negativo e que então o meu tipo de sangue (O -) é mais raro ainda. Fiquei mais contente com isso! O Eric já tinha doado há 3 semanas atrás e entregaram o resultado dele hoje; agradeceram muito etc. Parece que é muito difícil "convencer" as pessoas a doar sangue, dizem que só quando tem alguém da família precisando é que fazem. O detalhe do sistema aqui é que na ficha de entrevista para saber se podemos doar sangue ou não, temos que declarar se vivemos em monogamia ou poligamia. Eles também não fazem aquele exame prévio na hora pra depois tirar a quantidade normal de doação, tiramos o sangue e uma semana depois pegamos o resultado...
Beijos nossos :)
sexta-feira, 18 de setembro de 2009
Cerimônia surpresa
Quarta-feira passada fui de volta a Kari porque era dia de mercado nesse vilarejo. Eu queria ver como o mercado se organiza por lá e aproveitar a ocasião para conversar sobre a troca de informações entre as pessoas nesse evento – além do caráter econômico, os mercados africanos são verdadeiros acontecimentos sociais! Acabou que o que foi acontecendo foi uma grande surpresa pra mim. Chegando na cidade, antes de me dirigir ao mercado decidi passar na casa de um dos agricultores que tinha visitado uma semana antes. Ele demonstrou ter ficado muito feliz com minha visita e sentamos para conversar. Quando achei que era um bom momento para retomar nossa conversa inicial, perguntei mais detalhes sobre o chefe do vilarejo e o chefe de terras. Ele se prontificou a me levar na casa dos chefes e... lá fomos nós!
Os chefes são senhores já de idade avançada e eles não falam francês! O agricultor que estava comigo fala razoavelmente o francês, então já viram, a conversa foi meio uma confusão, o povo falando em Bwamu, o agricultor tentando achar as palavras pra me traduzir em francês... mas bem, conseguimos conversar um pouco. No meio dessa conversa veio uma surpresa: os chefes, vendo meu interesse por suas funções, me perguntaram se eu queria presenciar uma cerimônia! Além de cuidar da manutenção da paz no vilarejo (resolução de conflitos) esses chefes também têm funções meio que sacerdotais... eles fazem cerimônias com oferendas para os ancestrais, para diversos fins: proteção da comunidade, pedindo boas chuvas para a agricultura, etc. Eu fiquei meio sem saber o que dizer, mas sim aceitei o convite.
Fomos ao mercado comprar uma galinha branca segundo o pedido dos chefes. Pois é, essa é a parte triste, essas cerimônias geralmente incluem o sacrifício de uma galinha branca. Voltamos à casa dos chefes com a galinha para a cerimônia. O agricultor que estava comigo tinha me explicado um pouco como funcionava e durante a cerimônia ia me dizendo algumas coisas para facilitar meu entendimento. Fiquei impressionado com a naturalidade com que a cerimônia é feita, ali mesmo num canto da cour, ao ar livre. Se entendi bem, ela é dividida em três etapas principais: uma primeira de pedido de perdão, uma segunda chamada "das cinzas" e finalmente a parte final onde se faz o pedido aos ancestrais na medida que se faz o sacrifício. Ainda não entendi bem a parte das cinzas, mas a cerimônia como um todo acontece mais ou menos assim:
Nos dirigimos para o canto da cour onde os sacrifícios são feitos, facilmente identificável por causa da grande quantidade de penas brancas no chão. Ao me aproximar, o chefe do vilarejo me indicou que era preciso tirar os sapatos. Ficamos então os seis (os dois chefes, um ajudante, um observador que não entendi o que fazia lá, o agricultor e eu mesmo) em círculo, agachados. De lados opostos do círculo, o chefe de terras e o chefe do vilarejo têm funções complementares na cerimônia: o primeiro é o homem da palavra, ele recita as frases de invocação e os pedidos aos ancestrais, o segundo é o homem da ação, ele fica com a faca na mão e na medida que o outro fala ele vai fazendo gestos simbólicos com a faca, até o momento do sacrifício em si. A galinha é então degolada, seu sangue escorre pelo chão, e depois são suas penas que vão parar ali. No final, o ajudante serve duas cabaças de dolô (a cerveja tradicional daqui, veja aqui o artigo que publicamos sobre isso), uma para cada chefe. Antes de beber, uma boa porção do dolô é derramado no meio do círculo. Depois deles terem bebido, foi a vez do agricultor, a minha e por ultimo foi a vez dos outros dois. O chefe do vilarejo "examina" as vísceras da galinha para saber se está "tudo bem", parece que algumas partes têm que estar brancas e estavam, então, segundo ele, tudo bem. A galinha é então dividida entre os presentes e voilà, estava terminada a cerimônia.
Confesso que foi estranho presenciar o sacrifício da galinha, mas muito interessante acompanhar a cerimônia. Essas tradições são ligadas à "religião" animista, baseada nos poderes da natureza e na veneração dos ancestrais. Essa "religião" é anterior a todas as outras na região, e mesmo que as pessoas se digam de confissão católica ou muçulmana, dá pra perceber a influência do animismo em suas crenças. Há sempre muito mistério em torno da vida aqui no Burkina, as pessoas têm crenças "complementares", que colocam "em prática" em momentos distintos de suas vidas sociais. Muito provavelmente essas crenças seriam consideradas incompatíveis por integristas de uma ou outra religião. Mas quando conversamos com as pessoas por aqui sobre essas coisas, vemos que eles vivem entre dois mundos: aquele dos magos de magia negra, sempre temidos por lançarem feitiços e maldições sobre as pessoas, e aquele dos magos de magia branca, sempre procurados para a proteção das pessoas contra os primeiros ou as tristezas da vida...
Se eu descobrir mais detalhes sobre as cerimônias dos chefes coloco aqui num outro artigo, ok?! Abraços a todos!
Os chefes são senhores já de idade avançada e eles não falam francês! O agricultor que estava comigo fala razoavelmente o francês, então já viram, a conversa foi meio uma confusão, o povo falando em Bwamu, o agricultor tentando achar as palavras pra me traduzir em francês... mas bem, conseguimos conversar um pouco. No meio dessa conversa veio uma surpresa: os chefes, vendo meu interesse por suas funções, me perguntaram se eu queria presenciar uma cerimônia! Além de cuidar da manutenção da paz no vilarejo (resolução de conflitos) esses chefes também têm funções meio que sacerdotais... eles fazem cerimônias com oferendas para os ancestrais, para diversos fins: proteção da comunidade, pedindo boas chuvas para a agricultura, etc. Eu fiquei meio sem saber o que dizer, mas sim aceitei o convite.
Fomos ao mercado comprar uma galinha branca segundo o pedido dos chefes. Pois é, essa é a parte triste, essas cerimônias geralmente incluem o sacrifício de uma galinha branca. Voltamos à casa dos chefes com a galinha para a cerimônia. O agricultor que estava comigo tinha me explicado um pouco como funcionava e durante a cerimônia ia me dizendo algumas coisas para facilitar meu entendimento. Fiquei impressionado com a naturalidade com que a cerimônia é feita, ali mesmo num canto da cour, ao ar livre. Se entendi bem, ela é dividida em três etapas principais: uma primeira de pedido de perdão, uma segunda chamada "das cinzas" e finalmente a parte final onde se faz o pedido aos ancestrais na medida que se faz o sacrifício. Ainda não entendi bem a parte das cinzas, mas a cerimônia como um todo acontece mais ou menos assim:
Nos dirigimos para o canto da cour onde os sacrifícios são feitos, facilmente identificável por causa da grande quantidade de penas brancas no chão. Ao me aproximar, o chefe do vilarejo me indicou que era preciso tirar os sapatos. Ficamos então os seis (os dois chefes, um ajudante, um observador que não entendi o que fazia lá, o agricultor e eu mesmo) em círculo, agachados. De lados opostos do círculo, o chefe de terras e o chefe do vilarejo têm funções complementares na cerimônia: o primeiro é o homem da palavra, ele recita as frases de invocação e os pedidos aos ancestrais, o segundo é o homem da ação, ele fica com a faca na mão e na medida que o outro fala ele vai fazendo gestos simbólicos com a faca, até o momento do sacrifício em si. A galinha é então degolada, seu sangue escorre pelo chão, e depois são suas penas que vão parar ali. No final, o ajudante serve duas cabaças de dolô (a cerveja tradicional daqui, veja aqui o artigo que publicamos sobre isso), uma para cada chefe. Antes de beber, uma boa porção do dolô é derramado no meio do círculo. Depois deles terem bebido, foi a vez do agricultor, a minha e por ultimo foi a vez dos outros dois. O chefe do vilarejo "examina" as vísceras da galinha para saber se está "tudo bem", parece que algumas partes têm que estar brancas e estavam, então, segundo ele, tudo bem. A galinha é então dividida entre os presentes e voilà, estava terminada a cerimônia.
Confesso que foi estranho presenciar o sacrifício da galinha, mas muito interessante acompanhar a cerimônia. Essas tradições são ligadas à "religião" animista, baseada nos poderes da natureza e na veneração dos ancestrais. Essa "religião" é anterior a todas as outras na região, e mesmo que as pessoas se digam de confissão católica ou muçulmana, dá pra perceber a influência do animismo em suas crenças. Há sempre muito mistério em torno da vida aqui no Burkina, as pessoas têm crenças "complementares", que colocam "em prática" em momentos distintos de suas vidas sociais. Muito provavelmente essas crenças seriam consideradas incompatíveis por integristas de uma ou outra religião. Mas quando conversamos com as pessoas por aqui sobre essas coisas, vemos que eles vivem entre dois mundos: aquele dos magos de magia negra, sempre temidos por lançarem feitiços e maldições sobre as pessoas, e aquele dos magos de magia branca, sempre procurados para a proteção das pessoas contra os primeiros ou as tristezas da vida...
Se eu descobrir mais detalhes sobre as cerimônias dos chefes coloco aqui num outro artigo, ok?! Abraços a todos!
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